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Maconha: é hora de legalizar?

25 Set

Por que um grupo cada vez maior de políticos e intelectuais – entre eles o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso – defende a legalização do consumo pessoal de maconha

Shutterstock

Fumar maconha em casa e na rua deveria ser legal? Legal no sentido de lícito e aceito socialmente, como álcool e tabaco? O debate sobre a legalização do uso pessoal da maconha não é novo. Mas mudaram seus defensores. Agora, não são hippies nem pop stars. São três ex-presidentes latino-americanos, de cabelos brancos e ex-professores universitários, que encabeçam uma comissão de 17 especialistas e personalidades: o sociólogo Fernando Henrique Cardoso, do Brasil, de 77 anos, e os economistas César Gaviria, da Colômbia, de 61 anos, e Ernesto Zedillo, do México, de 57 anos. Eles propõem que a política mundial de drogas seja revista. Começando pela maconha. Fumada em cigarros, conhecidos como “baseados”, ou inalada com cachimbos ou narguilés, a maconha é um entorpecente produzido a partir das plantas da espécie Cannabis sativa, cuja substância psicoativa – aquela que, na gíria, “dá barato” – se chama cientificamente tetraidrocanabinol, ou THC.

Na Comissão Latino-Americana sobre Drogas e Democracia, reunida na semana passada no Rio de Janeiro, ninguém exalta as virtudes da erva, a não ser suas propriedades terapêuticas para uso medicinal. Os danos à saúde são reconhecidos. As conclusões da comissão seguem a lógica fria dos números e do mercado. Gastam-se bilhões de dólares por ano, mata-se, prende-se, mas o tráfico se sofistica, cria poderes paralelos e se infiltra na polícia e na política. O consumo aumenta em todas as classes sociais. Desde 1998, quando a ONU levantou sua bandeira de “um mundo livre de drogas” – hoje considerada ingenuidade ou equívoco –, mais que triplicou o consumo de maconha e cocaína na América Latina.

Em março, uma reunião ministerial na Áustria discutirá a política de combate às drogas na última década. Espera-se que o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, modifique a posição conservadora histórica dos Estados Unidos. A questão racial pode influir, já que, na população carcerária americana, há seis vezes mais negros que brancos. Os EUA gastam US$ 35 bilhões por ano na repressão e, em pouco mais de 30 anos, o número de presos por envolvimento com drogas decuplicou: de 50 mil, passou a meio milhão. A cada quatro prisões no país, uma tem relação com drogas. No site da Casa Branca, Obama se dispõe a apoiar a distribuição gratuita de seringas para proteger os viciados de contaminação por aids. Alguns países já adotam essa política de “redução de danos”, mas, para os EUA, o cumprimento dessa promessa da campanha eleitoral representa uma mudança significativa.

A Colômbia, sede de cartéis do narcotráfico, foi nos últimos anos um laboratório da política de repressão. O ex-presidente Gaviria afirmou, no Rio, que seu país fez de tudo, tentou tudo, até violou direitos humanos na busca de acabar com o tráfico. Mesmo com a extradição ou o extermínio de poderosos chefões, mesmo com o investimento de US$ 6 bilhões dos Estados Unidos no Plano Colômbia, a área de cultivo de coca na região andina permanece com 200 mil hectares. “Não houve efeito no tráfico para os EUA”, diz Gaviria.

Há 200 milhões de usuários regulares de drogas no mundo. Desses, 160 milhões fumam maconha. A erva é antiga – seus registros na China datam de 2723 a.C. –, mas apenas em 1960 a ONU recomendou sua proibição em todo o mundo. O mercado global de drogas ilegais é estimado em US$ 322 bilhões. Está nas mãos de cartéis ou de quadrilhas de bandidos. Outras drogas, como o tabaco e o álcool, matam bem mais que a maconha, mas são lícitas. Seus fabricantes pagam impostos altíssimos. O comércio é regulado e controla-se a qualidade. Crescem entre estudiosos duas convicções. Primeira: fracassou a política de proibição e repressão policial às drogas. Segunda: somente a autorregulação, com base em prevenção e campanhas de saúde pública, pode reduzir o consumo de substâncias que alteram a consciência. Liderada pelos ex-presidentes, a comissão defende a descriminalização do uso pessoal da maconha em todos os países. “Temos de começar por algum lugar”, diz FHC. “A maconha, além de ser a droga menos danosa ao organismo, é a mais consumida. Seria leviano incluir drogas mais pesadas, como a cocaína, nessa proposta”.

Fotos: Torsten Blackwood/AFP, Gabriel de Paiva/Ag. O Globo e Wilton Júnior/AE

EXPERIÊNCIA
Os ex-presidentes Ernesto Zedillo, César Gaviria e Fernando Henrique (da esq. para a dir.), em encontro no Rio, na semana passada. Eles defenderam a revisão das leis contra as drogas e a descriminalização da posse de pequenas quantidades de maconha

O que pode parecer a conservadores uma tremenda ousadia não passa, na verdade, de um gesto simbólico do continente produtor de drogas, a América Latina. Um gesto com os olhos voltados para o Norte, o hemisfério consumidor por excelência. Nos Estados Unidos, ainda se encarceram usuários na maioria dos Estados, e a Europa faz vista grossa ao consumo, mas não muda sua legislação. A comissão latino-americana acha “imperativo retificar a estratégia de guerra às drogas dos últimos 30 anos”. Nosso continente continua sendo o maior exportador mundial de cocaína e maconha, mas produz cada vez mais ópio e heroína e debuta na produção de drogas sintéticas. Um maior realismo no combate às drogas, sem preconceito ou visões ideológicas, ajudaria a reduzir danos às pessoas, sociedades e instituições.

Há quem discorde dessa visão, com base em argumentos também poderosos. Com a liberação do consumo da maconha, mais gente experimentaria a droga. Isso aumentaria o número de dependentes e mais gente sofreria de psicoses, esquizofrenia e dos males associados a ela. Mais gente morreria vítima desses males. “Como a maconha faz mal para os pulmões, acarreta problemas de memória e, em alguns casos, leva à dependência, não deve ser legalizada”, afirma Elisaldo Carlini, médico psicofarmacologista que trabalha no Centro Brasileiro de Informação sobre Drogas (Cebrid). “Legalizá-la significaria torná-la disponível e sujeita a campanhas de publicidade que estimulariam seu consumo”.

Reportagem da Revista ÉPOCA

Liberar ou não liberar?
Vidas e recursos seriam economizados com a legalização das drogas, mas o número de viciados seria maior
Revista Época Revista Época
  • Menos pessoas morreriam no combate ao tráfico
  • As violentas disputas entre traficantes pelo mercado de drogas não terminariam
  • Centenas de bilhões gastos todo ano por governos do mundo todo com a repressão às drogas poderiam ser investidos em outras áreas
  • Com mais viciados, poderia haver um aumento no número de crimes cometidos, em busca de dinheiro para sustentar o vício
  • Poderia haver redução da criminalidade, pois muitos crimes são cometidos para financiar o tráfico
  • Poderia haver um aumento no número de dependentes, pois as drogas seriam mais baratas e acessíveis
  • Haveria menos presos apenas por uso de drogas e, portanto, haveria mais espaço nas cadeias para criminosos perigosos
  • Grandes indústrias poderiam distribuir drogas e, como fazem com cigarros ou álcool, incentivar seu consumo
  • Poderia haver maior controle de qualidade das drogas, o que reduziria o número de mortes
  • Os sistemas públicos de saúde gastariam mais com o tratamento dos dependentes
Eles já foram punidos
Esportistas e artistas tiveram problemas pelo uso da maconha
Gail Burton
Michael Phelps

Nadador
O campeão olímpico foi suspenso por três meses por ter sido fotografado inalando maconha em uma festa

Rogério Albuquerque
Soninha

Vereadora
Ela perdeu o emprego de apresentadora na TV Cultura porque disse a ÉPOCA, em 2001, que fumava maconha

 Leonardo Aversa
Marcelo D2

Cantor
Ele afirma fumar maconha todos os dias e já foi preso após um show, quando defendeu a liberação da droga

Marcos Ramos
Marcello Antony

Ator
Foi preso em 2004 quando comprava uma pequena quantidade de maconha de um traficante

Deco Rodrigues
Giba

Jogador de vôlei
Foi suspenso do esporte em 2003 porque um exame antidoping acusou o uso de maconha


Comentários
  • FERNANDO | SP / São Paulo | 07/09/2010 14:20

    LEGALIZE JA SIM…
    SE ALCOOL PODE E CIGARRO TBM, VEJO QUE A ERVA TBM PODE, MESMO PORQUE TUDO QUE SE FALA A RESPEITO É FURADA, ASSISTAM ESSE VIDEO NO YOU TUBE, PROCUREM POR ” O SINDICATO” LA EXPLICA TUDO…E PORQUE DEVE-SE LEGALIZAR, ALGUEM JA VIU ALGUM CASO NO MUNDO DE ALGUEM QUE MORREU POR CONSUMO DE CANABIS? CERTAMENTE NÃO POIS NUNCA HOUVE…E DO CIGARRO QUANTOS MORREM? ASSISTAM VIDEO, NÃO É VIRUS NEM NADA, É INFORMAÇÃO RECENTE , CLARA E LIMPA PRA TODOS MUDAREM DE IDEIA… FUI

  • MOHAMED RASHAD | MG / Belo Horizonte | 28/08/2010 23:09

    LEGALIZE JÁ [2]
    LEGALIZE JÁ POIS A ERVA E NATURAL E NAO PODE LHE PREJUDICAR!

  • Leandro Santanna | PR / Califórnia | 03/07/2010 01:03

    Legaliza Já
    A maconha tem a solução para resolver o problema de tudo. Não tem o que industrializar, é uma PLANTA, com a legalização o usuário pode plantar para o seu consumo, isso é PERFEITO, não dá dinheiro para tráficante, indústria e governo, qualquer classe social pode plantar e não precisa ROBAR para poder consumir, além disso, nenhum cidadão que tenha educação e amor do pai e da mãe vai robar, a maconha se destaca nisso, ela não leva você a robar, você fuma um basiado e não precisa mais, ao contrário da cocaína e do crack que é SEMPRE MAIS, e são drogas depressivas, a maconha te deixa alegre, abre sua cabeça, faz você olhar a vida de uma outra maneira, SÃO MAIS DE 10 MIL ANOS DE USO E NENHUMA MORTE NOTÁVEL? o que fortalece o tráfico é a variedades de produtos no mercado, vamos tirar essa planta que pode ser a salvação do mundo, se alguém não sabe, a maconha não é apenas para fumar, olha o exemplo dos EUA, a maconha está sendo derivada no comércio alimentício procurem para vocês ver, além disso, a maconha vai ser utilizada na engenharia cívil para construir casas, além de tbm com a derivação poder ser feito biodiesel GASOLINA, ñ vou citar tudo, procurem se informar na internet, existe milhares de coisas que pode ser feita com a derivação, e qm quizer fumar fuma, faz menos mau que o cigarro e o alcool, é hipocrisia e falta de conhecimento julgarem a maconha como julgam. PAZ E AMOR!

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2 Comentários

Publicado por em 25 de Setembro de 2010 em Drogas

 

2 responses to “Maconha: é hora de legalizar?

  1. blogging with john chow review - review

    16 de Abril de 2013 at 07:00

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