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Não é hipocrisia, é civilidade, seu Rica Perrone

14 Abr

Texto de Ivan Trindade – Teia Livre

Em texto publicado em seu site, o jornalista esportivo da Globo.com Rica Perrone achou um absurdo hipócrita a punição que a Liga de Vôlei aplicou ao Cruzeiro depois que a sua torcida xingou o atleta Michael de bicha e viado em jogo entre as duas equipes.

Para Rica, trata-se de um exagero do politicamente correto.

Ele argumenta que xingamentos são normais no mundo do esporte e que não podem ser tipificados como expressões de preconceito. Para reforçar seu argumento, Rica usa a imagem das mães dos juízes de futebol, xingadas de “putas” por tocidas em todo o Brasil.

Será que é a mesma coisa?

Acho que não. Xingar a mãe do juiz é uma figura de linguagem, uma expressão quase folclórica do descontentamento do torcedor com aquele que os fãs acham que prejudicou seu time.

Outra diferença: Você conhece alguma senhora que foi atacada na rua apenas por ser mãe de um árbitro de futebol?

Pois bem. Gays, lésbicas, travestis e transexuais são agredidos e assassinados diariamente no Brasil apenas por serem quem são. Rica faz também a diferenciação entre ser gay e ser viado, ou bicha. Para Rica, ser viado (o que ele parece classificar como o gay exibido, escandaloso) é uma escolha e, por isso, está sujeito à oposição e à recriminação social.

Rica defende o direito de “andar do outro lado da calçada”, de não gostar, de dizer que não gosta.
Como era esperado, o texto foi aclamado no Twitter. Muitos dos apoiadores usavam a Hashtag #orgulhohetero.

Ninguém é obrigado a gostar da orientação sexual de ninguém, mas é preciso muito cuidado quando se externa esse desgosto. A distância entre “andar do outro lado da calçada” e bater na cabeça daquela bicha nojenta com uma lâmpada fluorecente é muito pequena, como temos visto no dia a dia de nossas cidades cada vez mais violento.

Quando uma torcida formada por homens, mulheres e crianças, muitos deles pais e mães acompanhados de seus filhos e filhas, xinga um atleta de viado e bicha exatamente porque esse atleta é homossexual assumido, está mais uma vez perpetuando a noção preconceituosa de que ser homossexual é algo ruim, digno de vergonha e que pode ser usado como agressão a alguém.

RIca se coloca como exemplo e se orgulha de ter vários amigos negros, a quem chama “carinhosamente” de Negão, sem que estes se incomodem com isso, ele parece não perceber que o preconceito está ai mesmo. Na nomalidade que existe em se chamar alguém de negão, pretinha, tiziu, crioulo, viadinho, bichina, sapatão, etc.

Infelizmente no Brasil as minorias não conquistaram ainda o direito de determinar quais são as expressões que são ofensivas e as que não são.

Nos EUA, chamar alguém de “Nigger” é motivo quase sempre para briga ou processo por racismo.

Rica Perrone fecha seu texto com o conhecido argumento de quem se sente incomodado com a luta das minorias por seu lugar de direito na sociedade.

Ele diz que os homossexuais querem tratamento vip, querem ter regalias e mais direitos do que os demais membros da sociedade.

Rica é paulista, branco, de classe média, homem e bem instruído, ou seja, não deve ter sofrido muito com preconceito durante sua vida, ele provavelmente nunca teve que quase se despir sempre que quis entrar em uma agência bancária ou foi seguido por seguranças sempre que entrou em uma loja.

Ele provavelmente nunca passou pela situação de saber que era mais qualificado para um emprego, mas perdeu a vaga para um homem apenas por ser mulher.

Ele não precisou passar a vida escondendo que sente atração por pessoas do mesmo sexo que ele.

Ele provavelmente nunca teve medo de ser agredido por andar de mãos dadas ou dar um beijo em público.

Se tivesse passado por uma ou mais de uma dessas situações, Rica talvez tivesse uma opinião diferente sobre a tal hipocrisia.

Ele saberia que o racismo, o machismo, a homofobia e todos os tipos de preconceitos se expressam nas menores coisas da vida, naqueles detalhes sem importância que se não combatidos com veemência, explodem em ações criminosas.

O discurso politicamente correto pode parecer exagerado, mas é um exagero que protege um bem maior, como uma vez escreveu o genial Luis Fernando Veríssimo sobre o assédio sexual às mulheres nos EUA.

“A verdadeira questão para as mulheres americanas é que o homem pode recorrer a tudo na sociedade – desde a moral dominante até as estruturas corporativas de poder – para seduzi-las, que toda essa civilização é um álibi montado para o estupro, e que elas só contam com um ‘não’ desacreditado para se defender.”

Por isso, Rica, não é tratamento especial. É civilidade e o direito do ofendido a determinar o que o ofende. Essa prerrogativa não pode ser de quem ofende.

E como nota final de um texto que prega a separação o tempo todo, Rica encarna Bolsonaro, ao dizer que nunca discriminou gays, nunca agrediu gays, mas que não quer ter um filho gay.

Prezo, Rica, que se isso vier a acontecer, você supere a sua mentalidade atual e aprenda a amá-lo como ele é.

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4 Comentários

Publicado por em 14 de Abril de 2011 em Discriminação, Homo/Bissexualidade

 

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4 responses to “Não é hipocrisia, é civilidade, seu Rica Perrone

  1. Jander Freire

    14 de Abril de 2011 at 18:56

    Discordo totalmente de ti.
    Em primeiro lugar, eu pergunto onde está o mais sagrado dos direitos, que é a liberdade de consciência? Que os homossexuais têm direito garantido por lei de adotarem para si o estilo de vida que quiserem e fazer suas escolhas sexuais, ninguém questiona.
    O que não é cabível é nos obrigar a concordar com essa prática. Se os homossexuais têm liberdade de fazer suas escolhas, os heterossexuais têm o sagrado direito de pensar diferente, de serem diferentes e de expressarem livremente o seu posicionamento.
    Em segundo lugar, vejo que estão querendo criar uma classe privilegiada distinta das demais. O respeito ao foro íntimo e à liberdade de consciência é a base de uma sociedade justa enquanto a liberdade de expressão é a base da democracia.
    Não podemos amordaçar um povo sem produzir um regime totalitário, truculento e opressor. Não podemos impor um comportamento goela abaixo de uma nação nem ameaçar com os rigores da lei aqueles que pensam diferente.
    Nesse país se fala mal dos políticos, dos empresários, dos trabalhadores, dos religiosos, dos homens e das mulheres e só se criminaliza aqueles que discordam da prática homossexual? Onde está a igualdade de direitos? Onde está o sagrado direito da liberdade de consciência? Onde o preceito da justiça?
    O que estamos assistindo é uma inversão de valores. A questão vigente não é a tolerância ao homossexualismo, mas uma promoção dessa prática. Querem nos convencer de que a prática homossexual deve ser ensinada e adotada como uma opção sexual legítima e moralmente aceitável.
    Se você é um homem que gosta de homem, ou se é uma mulher que gosta de mulher, não concordo, mas respeito. VOCÊ RESPEITA EU NÃO CONCORDAR?

     
    • Felippe Reis

      14 de Abril de 2011 at 23:51

      Para começar condição sexual não é uma opção…é uma condição.
      Ninguem decide por quem vai ter atração sexual e o diversidade sexual esta presente nao so nos seres humanos, mas em centenas de especies do reino animal, desde moscas de sopa até grandes especies mamiferas… acha que eles acordaram e pensaram “vou ser gay hoje.. cerebro por favor deixe de sentir desejo pelas forças, pelo jeito do sexo oposto…Plis!”

      A PL 122 nao criminaliza opnião.. criminaliza discriminação.
      Liberdade de expressão não é liberdade de ofensa, calunia e difamação, é sim uma condição sexual legitima! como qualquer outra.
      O que fizeram com o jogador não é e nunca vai ser liberdade de expressão.

      Querem transformar ofensa em livre expressão. É um abusurdo.
      Até crianças estavam ofendendo o jogador, as crianças são doutrinas em casa pelos pais a discriminarem Homossexuais, religiões afro, espiritas, ateus, argentinos, nordestinos, negros etc e tal e o governo nao deve intervir?

       
  2. Arquimedes

    26 de Abril de 2011 at 10:01

    Concordo com sua linha de raciocínio…
    Os preconceituosos lutam pelo direito de discriminar, pq o ódio eh muito grande e a narcizismo de sentir superior é maior ainda… pensam:
    ” tá certo, pode ser gay,eu não discrimino, mas eu sou melhor, sou exemplo, sou O Normal e quero ter o direito de apontar na rua e deixar sempre bem claro q eu sou superior e sou o escolhido, se nao for assim, não vale!”

     

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