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Intolerantes, vocês vão ter que engolir mais essa!

06 Maio

Por: Leonardo Sakamoto  
Jornalista e doutor em Ciência Política. Cobriu conflitos armados e o desrespeito aos direitos humanos em Timor Leste, Angola e no Paquistão. Professor de Jornalismo na PUC-SP, é coordenador da ONG Repórter Brasil e seu representante na Comissão Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo.

 

Ao arquivar a denúncia de um jogador de futebol contra um dirigente em 2007, o juiz Manoel Maximiano Junqueira Filho sugeriu que se o jogador fosse mesmo homossexual, “melhor seria que abandonasse os gramados”. Que “quem se recorda da Copa do Mundo de 1970, quem viu o escrete de ouro jogando (…) jamais conceberia um ídolo ser homossexual”. Também proferiu que: “Não que um homossexual não possa jogar bola. Pois que jogue, querendo. Mas forme seu time e inicie uma Federação”. Por fim, arrematou o seu naco de besteiras dessa forma: “Cada um na sua área, cada macaco no seu galho, cada galo em seu terreiro, cada rei em seu baralho. É assim que penso”.

Apesar da influência de grupos religiosos contrários a mudanças, mais cedo ou mais tarde, as leis serão alteradas no Brasil para garantir dignidade, estender direitos e combater preconceitos.

A importante decisão desta quinta (5) do Supremo Tribunal Federal de reconhecer a união civil de casais do mesmo sexo é um passo a mais, não o derradeiro. O problema é que essa caminhada está sendo bem lenta quando, em verdade, deveria correr rápida para dar tempo às pessoas que hoje vivem de desfrutarem uma nova realidade. Adotar filhos ou não ser vítima de homofobia, por exemplo.

Retomando o que já escrevi neste espaço, é um absurdo que a essa altura da história nossa sociedade ainda esteja discutindo se deve ou não universalizar direitos. Que, de tempos em tempos, gays sejam espancados e assassinados nas ruas só porque ousaram ser diferentes da maioria. Que seguidores de uma pretensa verdade divina taxem o comportamento alheio de pecado e condenem os diferentes a uma vida de inferno aqui na Terra.

Consciência não tem a ver com classe social – a diferença de um olho roxo deixado pela covardia de homens pobres ou ricos está apenas no preço da maquiagem usada pelas mulheres vítimas de violência para escondê-lo. Consciência não se aprende na escola, nem é reserva moral passada de pai para filho. Consciência tem a ver com a vivência comum na sociedade, a tentativa do conhecimento do outro, a busca por tolerar as diferenças.

O Congresso Nacional que, por vez ou outra, transpira as mais bizarras formas de preconceito através de seus Bolsonaros, é fruto do tecido social em que está inserido – e sim, a sua esbórnia que ganha as páginas policiais, digo, de política, é um reflexo de nós mesmos. Eles somos nós.

Porque, na prática, uma (não) decisão tomada pelo Legislativo tem em seu âmago o mesmo preconceito das piadas maldosas contra gays ou dos pequenos machismos em que nós (e não me excluo disso) nos afundamos no dia-a-dia. O que difere é o tamanho do impacto, não sua natureza. Legislativo que transfere, vez ou outra, para o STF o papel de refletir sobre as leis para garantir dignidade às minorias.

Nem sempre a Justiça acerta – prova disso é o juiz da história acima. Desta vez, sim, nacionalizando algo que já estava ocorrendo em um Estado ou outro, ao se reconhecer direito à pensão ou mesmo à herança em relações homoafetivas.

(E, pelas preces contrárias à união civil feitas pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, se Deus existe, deu um passa-moleque nos seus supostos representantes.)

Coloquemos a culpa na herança do patriarcalismo português, no Jardim do Éden e por aí vai. É mais fácil justificar que somos determinados pelo passado do que tentar romper com uma inércia que mantém homens, ricos, brancos, heterossexuais em cima e mulheres, pobres, negras e índias, homossexuais em baixo.

Será uma escolha entre a barbárie da intolerância e a civilização. Que vença, por fim e o mais breve possível, a tolerância.

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