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A visão dos brasileiros sobre a Homossexualidade

30 Maio

A polêmica sobre a futura distribuição do chamado “kit gay” nas escolas ganhou novos capítulos nos últimos dias. A presidente Dilma Rousseff decidiu vetar a distribuição do material de combate ao preconceito contra homossexuais, elaborado por organizações não-governamentais em parceria com o Ministério da Educação (MEC). Mas o ministro da Educação, Fernando Haddad, já avisou que pretende refazer o kit do projeto e distribuí-lo ainda neste ano. Em 1993, reportagem de VEJA trazia em levantamento inédito sobre a visão dos brasileiros a respeito dos homossexuais. O que se retrata, ali, é um quadro de mal-estar. Mais de uma década depois, percebe-se que a orientação sexual ainda é e vai ser por muito tempo uma questão complexa e tensa no seio das famílias. Isso muda muito lentamente. O que mudou muito rapidamente, porém, foi a maneira como a homossexualidade é encarada por adolescentes e jovens no Brasil.

 

Em VEJA de 12/5/1993: O que é ser gay no Brasil
A pesquisa, publicada por VEJA com exclusividade, ouviu 2.000 pessoas no país inteiro. Informa que 36% dos brasileiros não dariam emprego a uma pessoa – mesmo sabendo que é a mais qualificada profissionalmente para o cargo – se soubessem que se trata de um homossexual. Também diz que 56% seriam capazes de se afastar de um colega na mesma condição. Segundo o Ibope, 45% seriam capazes de mudar de médico por esse motivo. Conforme as estatísticas do Grupo Gay da Bahia, o mais ativo do país, podem ser contabilizadas 1.200 mortes violentas de homossexuais nos últimos doze anos. Não é de admirar, portanto, que a maioria absoluta dos homossexuais prefira manter sua condição em segredo. Nesse meio onde não existem estatísticas seguras, e cujo volume é calculado, pela maioria dos estudiosos, em 5% da população, ou 7,5 milhões de pessoas, todos sabem o benefício das sombras. A vida dos homossexuais brasileiros, hoje, é melhor do que no passado mas está longe de lhes garantir um cotidiano de conforto. Por isso, eles vivem em guetos, onde namoram de mãos dadas e paqueram. Uma novidade no mundo gay brasileiro é um esforço cada vez maior pelo estabelecimento de relações estáveis e duradouras, com patrimônio construído a quatro mãos.

O que aconteceu depois
Dez anos depois, VEJA publicou uma nova reportagem de capa sobre a vida dos homossexuais brasileiros, revelando que, em 2003, a discriminação sexual resistia, mas já havia sinais de que a luta contra o preconceito atravessava uma fase de transformação significativa. Em vez de manter o confinamento como técnica de defesa, os gays começaram a se expor, a se exibir, a emergir. Existem algumas indicações concretas dessa nova fase de exposição. Em 1995 havia quarenta endereços GLS em São Paulo, boa parte deles nas regiões decadentes da cidade. Em 2003 havia 180 locais, vários deles situados em bairros valorizadíssimos. São Paulo vem sendo classificada por muita gente como a São Francisco da América do Sul, referência à cidade americana conhecida como a meca dos homossexuais. Uma forte indicação de mudança de atitude dos gays foi conferida na VII Parada do Orgulho Gay. Em 1997, a primeira passeata reuniu apenas 2.000 gatos-pingados. Na edição de 2002, mais de 500.000 pessoas desfilaram. Já a mais recende edição do evento, realizada em 2010, reuniu mais de 3 milhões de pessoas.

Tamanha é a força das paradas que elas passaram a atrair políticos e artistas, todos de olho no poder eleitoral e de consumo da comunidade gay, estimada em cerca de 10% da população mundial segundo a maior parte dos estudos demográficos.

Declarar-se gay em uma turma ou no colégio de uma grande cidade brasileira deixou de ser uma condenação ao banimento ou às gozações eternas. A rapaziada está imprimindo um alto grau de tolerância a suas relações, a um ponto em que nada é mais feio do que demonstrar preconceito contra pessoas de raças, religiões ou orientações sexuais diferentes das da maioria. Uma pesquisa feita pelas universidades estaduais do Rio de Janeiro (Uerj) e de Campinas (Unicamp) tem os números: aos 18 anos, 95% dos jovens já se declararam gays. A maior parte, aos 16. Na geração exatamente anterior, a revelação pública da homossexualidade ocorria em torno dos 21 anos, de acordo com a maior compilação de estudos já feita sobre o assunto.

Na última parada gay de São Paulo, a maior do mundo, a esmagadora maioria dos participantes até 18 anos diz estar ali apenas para “se divertir e paquerar” (na faixa dos 30 o objetivo número 1 é “militar”). A questão central é que eles simplesmente deixaram de se entender como um grupo. São, sim, gays, mas essa é apenas uma de suas inúmeras singularidades – e não aquela que os define no mundo, como antes.

É fácil perceber que alguma coisa diferente está acontecendo no universo homossexual e ela não se materializa apenas nas paradas. No shopping center, na academia de ginástica, no bar, no restaurante, na fila do cinema, na galeria de arte, na livraria, na danceteria, os gays parecem estar em toda parte. Entre os gays, dá-se como certo que aumentou o número de homossexuais que revelaram sua verdadeira orientação sexual, bem como o total de casamentos gays. Apesar do preconceito ainda existente, o panorama se tornou menos hostil aos gays em função de uma série de vitórias computadas aqui e ali. Uma grande conquista foi de ordem legal. Em graus variados, a maioria dos países adotou leis de proteção às diferenças. Dezenas de nações ainda tratam a homossexualidade como crime. Mas, analisados apenas os países mais civilizados, há avanços notáveis. Mesmo no Brasil, onde a legislação não é das mais adiantadas, os gays registram diversas conquistas – a mais recente delas, o direito a registrar uma união civil estável.

Além dos avanços de natureza legal, há outra conquista igualmente importante de caráter econômico. Como a maior parte dos gays não tem família para criar nem escola de criança para pagar, suas despesas mensais fixas são mais baixas que as dos heterossexuais. Isso aumenta significativamente seu poder de compra, o que os torna bem-vindos nas lojas, agências de viagens, corretoras de imóveis. Mais endinheirados que a média da sociedade heterossexual e amparados pela Justiça, os gays foram à luta quando um número crescente deles passou a sentir a necessidade de se casar, de constituir família. E é impossível fazer isso sem se expor, sem se “misturar”.

Fonte: Veja

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