RSS

Arquivos mensais: Setembro 2011

A questão do aborto – Dr. Drauzio Varella

Desde que a pessoa tenha dinheiro para pagar, o aborto é permitido no Brasil. Se a mulher for pobre, porém,  precisa provar que foi estuprada ou estar à beira da morte para ter acesso a ele. Como consequência, milhões de adolescentes e mães de família que engravidaram sem querer recorrem ao abortamento clandestino, anualmente.

A técnica desses abortamentos geralmente se baseia no princípio da infecção: a curiosa introduz uma sonda de plástico ou agulha de tricô através do orifício existente no colo do útero e fura a bolsa de líquido na qual se acha imerso o embrião. Pelo orifício, as bactérias da vagina invadem rapidamente o embrião desprotegido. A infecção faz o útero contrair e eliminar seu conteúdo.

O procedimento é doloroso e sujeito a complicações sérias, porque nem sempre o útero consegue livrar-se de todos os tecidos embrionários. As membranas que revestem a bolsa líquida são especialmente difíceis de eliminar. Sua persistência na cavidade uterina serve de caldo de cultura para as bactérias que subiram pela vagina, provoca hemorragia, febre e toxemia.

A natureza clandestina do procedimento dificulta a procura por socorro médico, logo que a febre se instala. Nessa situação, a insegurança da paciente em relação à atitude da família, o medo das perguntas no hospital, dos comentários da vizinhança e a própria ignorância a respeito da gravidade do quadro colaboram para que o tratamento não seja instituído com a urgência que o caso requer.

A septicemia resultante da presença de restos infectados na cavidade uterina é causa de morte frequente entre as mulheres brasileiras em idade fértil. Para ter ideia, embora os números sejam difíceis de estimar, se contarmos apenas os casos de adolescentes atendidas pelo SUS para tratamento das complicações de abortamentos no período de 1993 a 1998, o número ultrapassou 50 mil. Entre elas, 3.000 meninas de dez a quatorze anos.

Embora cada um de nós tenha posição pessoal a respeito do aborto, é possível caracterizar três linhas mestras do pensamento coletivo em relação ao tema.

Há os que são contra a interrupção da gravidez em qualquer fase, porque imaginam que a alma se instale no momento em que o espermatozoide penetrou no óvulo. Segundo eles, a partir desse estágio microscópico, o produto conceptual deve ser sagrado. Interromper seu desenvolvimento aos dez dias da concepção constituiria crime tão grave quanto tirar a vida de alguém aos 30 anos depois do nascimento. Para os que pensam assim, a mulher grávida é responsável pelo estado em que se encontra e deve arcar com as consequências de trazer o filho ao mundo, não importa em que circunstâncias.

No segundo grupo, predomina o raciocínio biológico segundo o qual o feto, até a 12ª semana de gestação, é portador de um sistema nervoso tão primitivo que não existe possibilidade de apresentar o mínimo resquício de atividade mental ou consciência. Para eles, abortamentos praticados até os três meses de gravidez deveriam ser autorizados, pela mesma razão que as leis permitem a retirada do coração de um doador acidentado cujo cérebro se tornou incapaz de recuperar a consciência.

Finalmente, o terceiro grupo atribui à fragilidade da condição humana e à habilidade da natureza em esconder das mulheres o momento da ovulação, a necessidade de adotar uma atitude pragmática: se os abortamentos acontecerão de qualquer maneira, proibidos ou não, melhor que sejam realizados por médicos, bem no início da gravidez.

Conciliar posições díspares como essas é tarefa impossível. A simples menção do assunto provoca reações tão emocionais quanto imobilizantes. Então, alheios à tragédia das mulheres que morrem no campo e nas periferias das cidades brasileiras, optamos por deixar tudo como está. E não se fala mais no assunto.

A questão do aborto está mal posta. Não é verdade que alguns sejam a favor e outros contrários a ele. Todos são contra esse tipo de solução, principalmente os milhões de mulheres que se submetem a ela anualmente por não enxergarem alternativa. É lógico que o ideal seria instruí-las para jamais engravidarem sem desejá-lo, mas a natureza humana é mais complexa: até médicas ginecologistas ficam grávidas sem querer.

Não há princípios morais ou filosóficos que justifiquem o sofrimento e morte de tantas meninas e mães de famílias de baixa renda no Brasil. É fácil proibir o abortamento, enquanto esperamos o consenso de todos os brasileiros a respeito do instante em que a alma se instala num agrupamento de células embrionárias, quando quem está morrendo são as filhas dos outros. Os legisladores precisam abandonar a imobilidade e encarar o aborto como um problema grave de saúde pública, que exige solução urgente.

Fonte: Drauzio Varella

LEIA TAMBÉM:

Anúncios
 
Deixe o seu comentário

Publicado por em 28 de Setembro de 2011 em Aborto, Política, Reflexões

 

Etiquetas: ,

Jovens Cristãos: Extrema direita universitária se alia a skinheads

Jovens estudantes neoconservadores fogem ao estereotipo de arruaceiros mas defendem ação violenta das gangues

Nara Alves e Ricardo Galhardo, iG São Paulo

Eles não são fortões, não lutam artes marciais, não usam tatuagens com suásticas e preferem os livros e computadores às facas e socos ingleses. Em vez de estações de metrô e shows de punk rock, seu habitat natural são as quitinetes apertadas do Crusp ou os vastos gramados da USP (Universidade de São Paulo). Eles são os neoconservadores, jovens universitários que defendem valores como o direito à propriedade e a fidelidade matrimonial.

À primeira vista, parecem mais universitários comuns, magricelas, com suas calças largas, camisetas amarrotadas e a barba por fazer. Mas apesar de estarem longe do estereotipo do jovem arruaceiro, cerraram fileiras ao lado de skinheads musculosos nas marchas em defesa do deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ) e na anti-Marcha da Maconha.

“Estamos aqui para batalhar tanto intelectualmente quanto fisicamente”, apregoa Celso Zanaro, 22 anos, estudante de Geografia da USP. “O que precisamos é de homens dispostos a morrer por seus valores”, completou.

Zanaro é um dos quatro integrantes do núcleo duro da União Conservadora Cristã (UCC), organização criada

Folheto faz propaganda da UCC na USP

em julho do ano passado nos corredores da USP com os objetivos declarados de defender valores como o casamento, a fidelidade conjugal, direito à propriedade e combater o predomínio do pensamento marxista no meio acadêmico e político.

Pouco mais de um ano depois da criação, a UCC conta com 16 membros, 14 da USP e dois da Unicamp. Parece pouco mas nas eleições para o diretório central da USP, os neoconservadores ficaram em 5º lugar entre as dez chapas concorrentes.

“Na época da campanha fomos procurados pela juventude do PSDB mas não dá para fazer aliança aqui dentro”, disse Zanaro.

Em mais de duas horas de conversa, entre um cigarro e outro, o estudante citou pelo menos 15 autores conservadores, muitos deles nunca traduzidos para o português. Mas as principais referências do grupo são o jornalista Olavo de Carvalho (que defende a pena de morte para os comunistas), o integralismo (versão nacional do nazismo) de Plínio Salgado e o ultra-conservadorismo de Plínio Correia de Oliveira, fundador da extinta TFP (Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade).

Sobre a ditadura militar, Zanaro diz: “Se negarmos com veemência a ditadura não estaremos fazendo nada a mais do que reforçar o discurso comunista. A ditadura foi necessária num contexto”.

Na verdade, ele lamenta a falta de pulso do comando atual das Forças Armadas por não intervir no governo Luiz Inácio Lula da Silva durante o escândalo do mensalão.

“A função das Forças Armadas é respaldar as instituições democráticas. O Legislativo é uma delas. A partir do momento em que existiu um esquema para comprar o Legislativo e as Forças Armadas não depuseram o presidente, elas não cumpriram seu papel”.

Para os jovens da UCC, a USP é um antro comunista, nenhum partido político é suficientemente conservador, a pedofilia na Igreja é fruto da infiltração de agentes da KGB, o sexo é uma forma de idiotização da juventude, Geraldo Alckmin colocou uma mordaça gay na sociedade paulista, Fernando Henrique Cardoso foi o criador de Lula e Lula é o próprio anticristo.

Embora tenha resistido à abordagem da juventude tucana, a UCC votou em massa em José Serra nas eleições presidenciais do ano passado, mas com ressalvas. “Serra é um sujeito que, embora tenha se aliado a setores conservadores e renegado uma postura mais virulenta de esquerda, não abandonou totalmente estes ideais”, justificou.

Os integrantes da UCC dizem ser contra qualquer tipo de violência mas não escondem a admiração pelos skinheads, aliados de ocasião. “Essa postura de combate me inspira muito. Uma inteligência que não está disposta ao combate é uma inteligência vazia”, disse Zanaro que, no entanto, faz questão de demarcar o território. “Eles se dizem de extrema-direita mas o líder deles é vegetariano”.

A aproximação tem base na argumentação ideológica dos neoconservadores, segundo a qual é necessária uma elite intelectual que sirva de referência para a massa. “Uma massa conservadora sem uma elite é uma massa de manobra. Não existe educação para as massas. Precisamos de uma alta cultura que sirva de referência para estas massas”, disse Zanaro.

Apesar da aproximação com grupos que, no limite, praticam a intolerância contra minorias, o líder da UCC esclarece que o movimento não tem ligações como nazismo. “Não somos neonazistas. Ao contrário. Defendemos o estado de Israel”.

 

CONFIRA TAMBÉM:

 
4 Comentários

Publicado por em 27 de Setembro de 2011 em Homo/Bissexualidade, Política, Religião

 

Etiquetas: , , ,

QUEM NÃO VIU, VAI VER: Sexóloga Regina Navarro participa do último “Roda Viva” com Gabi

O último ‘Roda Viva’ sob o comando da jornalista Marília Gabriela foi ao ar no dia 29/08/2011 com a participação da psicanalista e colunista Regina Navarro Lins. No debate, ela abordou assuntos como casamento, bissexualidade, além de outros temas que envolvem amor e sexo.

“Essa é a terceira vez que Marília Gabriela me entrevista, mas no ‘Roda Viva’ é diferente. São cinco pessoas te bombardeando ao mesmo tempo. Os convidados podem te interromper no meio de uma resposta para questionar, tudo na maior educação e elegância”, conta Regina.

No programa, a psicanalista aproveita para defender o casamento, mas com ressalvas. “Um casamento pode ser ótimo, mas as pessoas precisam reformular as expectativas que alimentam sobre a vida a dois”, teoriza ela, que já foi casada três vezes.

Essa excelente e imperdível entrevista, você pode assistir na íntegra logo abaixo.
Aproveite e deixe seu comentário aqui no Blog.

 

VEJA TAMBÉM:

 
1 Comentário

Publicado por em 26 de Setembro de 2011 em Sem categoria

 

INTOLERÂNCIA RELIGIOSA: Muçulmana francesa multada por usar véu diz que é chamada de lixo

por Daniela Fernandes, da BBC Brasil

A francesa muçulmana Hind Ahmas(foto), que foi a primeira pessoa a ser condenada pela Justiça francesa

Hind é divorciada

por usar o niqab, um véu que deixa apenas os olhos à mostra, diz “ser insultada todos os dias” ao caminhar pelas ruas com o rosto coberto.

O uso da vestimenta em locais públicos foi proibido por lei na França desde abril passado.

“São insultos pessoais ou contra os muçulmanos. Normalmente, as pessoas gritam grosserias pelas janelas dos carros ou esperam que eu me distancie delas nas calçadas para me ofender”, contou Ahmas.

“Sou chamada de lixo, de terrorista, extremista ou me dizem para eu voltar para o Afeganistão”, diz ela. Hind afirma que não sofre pressões por parte de membros da família ou homens muçulmanos para cobrir o rosto.

“Vivo como qualquer mulher, a única diferença é a minha escolha de vestimenta”, afirma Ahmas, que é divorciada e mãe de uma garota de quatro anos.

A França é o primeiro país europeu a aplicar a proibição do uso do véu que cobre parcialmente ou totalmente o rosto em qualquer espaço público, como transportes, lojas, parques, escolas e repartições.

Na semana passada, a Justiça condenou Ahmas, 32 anos, e Najate Naït Ali, 36 anos, a multas de 120 e 80 euros, respectivamente (cerca de R$ 300 e R$ 200). A multa máxima prevista na lei é de 150 euros.

Segundo Ahmas, a lei francesa “viola o direito europeu, que garante a liberdade de convicções religiosas”.

Por esse motivo, ela continua usando normalmente o niqab – que deixa apenas os olhos à mostra.

“Retirar o niqab significaria renegar minha fé”. Faz quase sete anos que uso o véu integral, muito antes das discussões sobre a lei. Não cubro o rosto por provocação ou porque o assunto está na moda”, diz ela, que mora em Aulnay-sous-Bois, uma periferia pobre de Paris.

Mas, por enquanto, ela só foi parada nas ruas pela polícia “quatro ou cinco vezes”, sendo que em um dos casos foi algemada e levada para a delegacia.

“Eles queriam me revistar e exigi que fosse uma policial feminina. Mas não precisavam me algemar, foi abuso de autoridade.” Nos outros controles de identidade, ela aceitou ir à delegacia ou mostrou seu rosto na rua aos policiais em áreas de menor movimento.

Ahmas considera que a condenação na Justiça é “uma excelente notícia porque dá destaque para o assunto e representa o ponto de partida para conseguir a revogação da lei.”

Ela já entrou com recurso contra a decisão dada na semana passada e prevê levar o caso à Corte Europeia de Direitos Humanos.

Ahmas criou a associação “Cidadãs da Liberdade” para defender a anulação da lei. Sua amiga Kenza Drider, que usa o niqab e na semana passada anunciou sua candidatura às eleições presidenciais do próximo ano, também integra a associação.

Mas para se tornar oficialmente candidata, Drider precisará recolher 500 assinaturas de políticos franceses, o que dificilmente deverá ocorrer.

Ahmas afirma que o governo francês criou a lei do véu integral por motivos eleitorais, “para desviar a atenção em relação aos reais problemas do país e para que o islamismo seja menos visível na França”.

“O islamismo passou a ser sinônimo de terrorismo, de Bin Laden e de bombas. Estou tão longe disso tudo. Só aspiro a ter uma vida tranquila e poder levar minha filha ao zoológico sem ser insultada”, diz ela.

.
# Nota do Blog: Segundo dados postados no site Wikipédia, em 2003, a CIA World Factbook listou como principais religiões da França: Catolicismo Romano – 83%; Muçulmanos – 6%; Protestantes – 2%; e Judeus 1%. Outra pesquisa de 2003, 62% dos entrevistados declararam-se católicos, 6% muçulmanos, 2% protestantes, 1% judeus, 2% de “outras religiões” (exceto para os ortodoxos ou budistas, que eram insignificantes), 26% “sem religião” e 1 % não responderam.

LEIA SOBRE OUTROS CASOS DE INTOLERÂNCIA PRATICADAS POR RELIGIOSOS:

 
Deixe o seu comentário

Publicado por em 26 de Setembro de 2011 em Discriminação, Religião

 

Etiquetas: , , ,

Nova técnica impede o vírus HIV de danificar o sistema imunológico humano.

Fonte: Veja

Cientistas do Imperial College de Londres e da Universidade de Johns Hopkins descobriram uma maneira de evitar que o vírus HIV, causador da aids, danifique o sistema imunológico humano. Segundo a pesquisa, publicada no periódico médico Blood, a descoberta pode ser o passo inicial para o desenvolvimento de uma vacina eficaz contra a aids.

Durante os estudos em laboratório, os pesquisadores descobriram que, quando o colesterol é removido da membrana do HIV, o vírus se torna incapaz de danificar o sistema imunológico. Quando uma pessoa contrai um vírus comum, esse sistema tem uma resposta inata, defendendo o corpo da infecção. Alguns pesquisadores acreditam, porém, que o HIV leva o organismo a uma reação exagerada, o que acaba enfraquecendo a próxima linha de defesa do sistema imunológico, também conhecida como resposta imune adaptativa.

Assim, com a remoção do colesterol da membrana que envolve o vírus, o HIV foi impedido de desencadear a resposta imune inata. Isso resultou em uma resposta adaptativa mais forte, orquestrada pelas células imunes chamadas células-T. De acordo com os pesquisadores, os resultados vão ao encontro da ideia de que o HIV estimula em excesso a resposta inata, enfraquecendo o sistema imunológico.

“O HIV é muito sorrateiro. Ele foge das defesas do hospedeiro desencadeando respostas exageradas que danificam o sistema imunológico. É como manter seu carro na primeira marcha por tempo demais. Eventualmente o motor estraga”, diz Adriano Boasso, coordenador da pesquisa e médico do Imperial College de Londres. Segundo o especialista, essa pode ser a razão pela qual o desenvolvimento de uma vacina tem se provado tão difícil. “A maioria das vacinas instrui a resposta adaptativa e reconhecer o invasor, mas é difícil de isso funcionar se o vírus desencadeia outros mecanismos que enfraquecem a resposta adaptativa.”

Colesterol – O HIV forma sua membrana das células que infecta. Essa membrana contém colesterol, substância que ajuda a mantê-lo fluído. A fluidez da membrana permite ao vírus interagir com tipos particulares de células. O colesterol na membrana celular, no entanto, não está relacionado ao colesterol no sangue, que é um fator de risco para doenças cardíacas e não tem relação com o HIV.

Normalmente, um subconjunto de células do sistema imunológico chamadas células dendríticas plasmocitóides (pDCs, sigla em inglês) reconhece e reage rapidamente com o HIV, através da produção de moléculas sinalizadoras chamadas interferons. Esses sinalizadores ativam vários processos que são úteis inicialmente, mas que danificam o sistema imunológico se ativados por muito tempo.

A equipe de Adriano Boasso descobriu, então, que se o colesterol é removido da membrana do HIV ele fica incapacitado de ativar as pDCs. Como consequência, as células-T, que orquestram a resposta adaptativa, conseguem combater o vírus de maneira mais eficaz.

A remoção do colesterol foi feita com o uso de várias concentrações de beta-ciclodextrina (bCD, sigla em inglês), um derivado do amido que se liga ao colesterol. Usando níveis elevados de bCD eles produziram um vírus com um grande buraco no envelope, que não era infeccioso e não podia ativar pDCs. Ainda assim, as células –T do sistema de defesa conseguiam reconhecer o vírus e ataca-lo. “É como um exército que perdeu suas armas, mas ainda tem suas bandeiras. O exército adversário ainda consegue reconhecê-lo e atacá-lo”, diz.

LEIA TAMBÉM:

 

 
Deixe o seu comentário

Publicado por em 23 de Setembro de 2011 em Sexualidade

 

Etiquetas: ,

Casamento: Por que brigamos tanto?


Texto de: Regina Navarro Lins
Psicanalista

Regina Lins fala do rancor matrimonial que muitos casais arrastam por anos

Sil e Afonso são casados há 12 anos e têm três filhos. Afonso chegou tenso na última sessão de terapia e desabafou: “Nossa convivência está se tornando insuportável. Não sei por quanto tempo mais vou aguentar. Brigamos por qualquer coisa. Ontem, combinamos um cinema. Mas liguei para Sil pedindo para irmos hoje porque eu estava exausto. Pronto. Foi motivo para discussão a noite inteira. Parece que o carinho que havia entre nós foi substituído por uma raiva, que nem sempre conseguimos segurar. Pior é quando acontece na frente de outras pessoas. No sábado passado, quando estávamos saindo com um casal amigo para almoçar, a briga foi por causa de uma vaga para estacionar o carro. O clima ficou péssimo. As pessoas ficam sem jeito e nunca sei como contornar a situação. Parece que é impossível vivermos em paz. Eu sei que a culpa não é só dela. Também fico sem paciência e, em alguns momentos, digo coisas agressivas. Na verdade, o grande mistério de tudo isso é entender por qual motivo ainda ficamos juntos.

É muito desagradável conviver com um casal que briga. Porém, juntos há muito tempo, não percebem o absurdo de se viver dessa forma. Quando saem com um grupo de amigos e praticamente não precisam se comunicar, ainda passa. Mas quando só há mais uma ou duas pessoas, então a situação tende a ficar tensa. Muitas vezes o casal aproveita justamente a presença dos outros para se agredir, criando uma situação constrangedora – mesmo que os ataques sejam sutis e disfarçados.

“Não conheço rancor pior que o matrimonial. A cara das pessoas nessas situações fica de uma feiúra moral que assusta. O clima em torno dos dois é literalmente irrespirável, sobretudo por acreditarem que ambos têm razão”, afirma o psicoterapeuta e escritor José Ângelo Gaiarsa. Para ele, o rancor matrimonial, acima de tudo, amarra, pega você de qualquer jeito e te imobiliza como se você tivesse caído numa teia de aranha. E quanto mais você se mexe, mais se amargura e raiva sente. Raiva – que faz brigar; mágoa – que faz chorar. A mistura das duas é o rancor. É ficar balançando muito e por muito tempo entre o homicídio e o suicídio. E cometendo ambos ao mesmo tempo.

Mas será que Sil e Afonso sabem por qual razão começam a brigar? Provavelmente não. Entretanto, o que menos importa é o tema da briga; por qualquer motivo o rancor que existe e que se tenta negar escapa, sem controle. As brigas também podem ser silenciosas. Caras, olhares, gestos, tons de voz, ironias disfarçadas, tudo tornando bem desagradável o dia a dia do casal. Alguns chegam ao ponto de, após anos de vida em comum, ir deixando de falar com o outro. Mas ficam ali, juntos, sem nem pensar em separação. “Casamento é assim mesmo…”, dizem.

A dependência emocional que se desenvolve entre marido e mulher dificulta a separação. É comum um precisar do outro para não se sentir sozinhos e, principalmente, para que ele(a) seja o depositário de suas limitações, fracassos, frustrações e também para responsabilizá-lo pela vida tediosa que levam. Quanto maior a defasagem entre a expectativa que tinham do casamento e a impossibilidade de concretizá-la, piores são as brigas.

Geralmente, quando as pessoas se casam alimentam a expectativa de que vão se tornar um só, que terão todas as necessidades satisfeitas pelo outro. Com o tempo, essa fantasia deixa de existir. Virginia Sapir, uma terapeuta de família conhecida no mundo todo, afirma que o sentimento mais comum entre os casais é o desprezo recíproco. Parece que se despreza o outro por ter falhado na sua principal função: tornar a vida do parceiro plena e interessante. Gaiarsa, com sua prática clínica de mais de 50 anos, acrescenta: “Esse rancor matrimonial é a coisa mais peçonhenta, amarga, azeda e torturante de que tenho notícia ou experiência. Sim, experiência – terrível. Quem não a tem vez por outra? Mas quando ela dura muitos meses – até muitos anos – é, na certa, o pior veneno que se pode imaginar”.

Contudo, sou otimista quanto às mudanças. Homens e mulheres já começam a perceber as mentiras do amor romântico e estão se dando conta de que a complementação por meio do outro não passa de uma ilusão. Com isso, diminui muito a disposição para sacrifícios visando manter uma relação. Hoje, ao contrário de outras épocas, é comum haver vários interesses além dos amorosos e já encontramos quem acredite que se desenvolver como pessoa é mais importante do que ter alguém ao lado.

Comente essa coluna no campo abaixo!

Perguntei para algumas pessoas quais são as razões pelas quais os casais brigam. A seguir, o que eles pensam:

Zélia Duncan (cantora e compositora)
O mais difícil é você detectar onde está a individualidade do outro… onde está aquele pedaço que, por mais que você divida tudo, nunca vai chegar. Se você acha que chegou é uma ilusão. Está invadindo ou reprimindo a pessoa. É difícil detectar isso quando se está vivendo junto todo dia. Às vezes existem coisas que me irritam, mas não me dizem respeito… é muito difícil sacar essa fronteira.

Nana Caymmi (cantora)
Tudo é por causa dos problemas financeiros. As brigas todas e bebedeiras são porque as pessoas gastam mais do que podem. Para mim a relação vai para a cucuia, não é por falta de amor não. É por ter que pagar o aluguel e tudo mais. O dinheiro é primordial, é só ler o jornal e você não vê um barraco que não seja por dinheiro.

Léo Jaime (cantor e compositor)
Homens são bobos e mulheres são chatas. No fundo o homem sabe que ela vai chateá-lo até que, por ela, ele venha a perder o tesão. Ela chateará pensando em fazê-lo deixar de ser bobo. O homem se casa pensando que ela não vai mudar e ela muda; a mulher se casa pensando que vai conseguir mudá-lo e ele não muda.

Elza Soares (cantora)
A coisa mais difícil na vida do casal é o banheiro. A toalha no chão também começa a complicar a cabeça. E aquelas roncadinhas estranhas… A gente acorda muito feia, tem que dormir maquiada. E de madrugada é bom ir até o banheiro e passar um batonzinho.

Evandro Mesquita (ator e cantor)
A principal coisa é que os dois não tentem ser um só. Cada um tem que ter sua individualidade, ter até um espaço físico próprio em casa. As diferenças de cada um não devem ser obstáculos, e sim motivo de encantamento pela surpresa que causam.

VEJA TAMBÉM:

 
Deixe o seu comentário

Publicado por em 22 de Setembro de 2011 em Reflexões, Sexualidade

 

Etiquetas: , , ,

Comercial da Caixa Econômica “embranquece” Machado de Assis

Por: Leonel Camasão

 

O comercial de 150 anos da Caixa Econômica Federal (CEF) “embranqueceu” um dos maiores escritores Brasileiros, Machado de Assis. Apresentado pela atriz Glória Pires, a narrativa de um minuto fala da importância do banco nas últimas 15 décadas. Na cena, Glória abre um livro com uma gravura, que é enfocada pela câmera. A partir daí, começa uma  “viagem no tempo” mostrando um Machado de Assis branco sendo atendido na Caixa Econômica Federal. Machado de Assis era filho de um pintor negro e de uma lavadeira açoriana, e possuía traços e cores característicos dos descendentes africanos.

 
Deixe o seu comentário

Publicado por em 22 de Setembro de 2011 em Discriminação

 

Etiquetas: ,