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Homens gays têm mais interesse sexual em crianças do que homens heterossexuais?

13 Nov

Fonte: Psychology Today
Autora
: Alice Dreger*
Tradução
: Rodrigo VérasAndré Rabelo

Eu pensei em segurar este post até a próxima vez que alguém no noticiário declarar que os homens gays são os culpados pelo abuso sexual de crianças. Eu provavelmente só teria que esperar umas duas semanas, no máximo.

Mas decidi ir em frente e divulgar esta pesquisa, para que da próxima vez que este assunto vier à tona, as pessoas racionais falando sobre essa questão tenham os dados que necessitam para sustentarem seus palpites.

Então, já no começo, deixe-me responder à minha pergunta no título:

Será que os homens gays têm mais interesse sexual em crianças do que homens heterossexuais? Não. E temos estudos de laboratório para provar isso.

Na verdade, o British Journal of Psychiatry publicou um grande estudo apoiando a resposta  “não” há quase 40 anos atrás. O conhecido pesquisador sobre sexo, Kurt Freund, e seus colaboradores, utilizaram um método de laboratório (descrito abaixo) que demonstrou que a resposta sexual de homens gays por meninos foram semelhantes às respostas de homens heterossexuais para meninas. (Ambas as respostas são relativamente baixas.) Em junho passado, no Canadá, na conferência de pesquisa internacional sobre a ciência da orientação sexual, o pesquisador sobre Sexo,  Ray Blanchard (que foi treinado por Freund), apresentou novos dados substanciais confirmando e ampliando os achados de Freund.

Blanchard publicou este trabalho on-line, tornando-o  disponível gratuitamente para todos os cantos. Clique aqui para ver o documento completo. Mas, como esse trabalho é tão importante (os cientistas reunidos no Canadá ficaram chocados e quase em silêncio quando viram os impressionantes conjuntos de dados e trabalho teórico que Blanchard colocou diante de nós), eu pedi a Blanchard para explicar o trabalho de forma um pouco mais clara para aqueles que não são cientistas. Ele foi bastante gentil em fazer issopara nós aqui.

Blanchard explica primeiro o método utilizado em laboratório:

“Este conjunto de dados incluiu medidas executadas com o mesmo método laboratorial utilizado por Freund et al., ou seja, testes falométricos. O teste falométrico (às vezes chamados pletismografia peniana) é uma técnica objetiva para avaliar o interesse erótico nos homens. Em testes falométricos de gênero e orientação de idade, o volume de sangue peniano do indivíduo é monitorado enquanto ele é apresentado a uma seqüência padronizada de estímulos laboratoriais retratando crianças do sexo masculino e feminino e adultos. Aumentos do volume peniano de sangue dos pacientes (ou seja, graus de ereção peniana) são usados ​​como a medida de sua atração por diferentes classes de pessoas.”

Em outras palavras, os pesquisadores do sexo estudando esses homens amarram um dispositivo sobre os pênis deles para medir o quão inchados ou flácidos tornam-se seus pênis em resposta a vários tipos de fotos e fitas de áudio. A ideia é que, quanto mais ereto o pênis, mais o homem foi estimulado pelo material sexual particular que está sendo apresentado a ele. Blanchard também descreve a população alvo de seu recente estudo:

“Os sujeitos foram 2.278 pacientes do sexo masculino encaminhados a uma clínica de especialidade para avaliação falométrica de suas preferências eróticas. Todos foram submetidos ao mesmo teste, que mediu as suas respostas penianas a seis classes de estímulos: meninas pré-púberes, meninas na puberdade, mulheres adultas, meninos pré-púberes, meninos púberes e homens adultos. Os estímulos não foram, é claro, as pessoas de verdade, mas sim narrativas gravadas em fita descrevendo interações sexuais com meninas pré-púberes, meninas na puberdade, e assim por diante. Essas narrativas foram acompanhadas por slides mostrando modelos nuas que correspondiam, em idade e sexo ao tema da narrativa. Os slides não apresentam os modelos fazendo nada de sexual ou mesmo sugerindo tal coisa, mas se assemelhavam às ilustrações fotográficas de maturação física em um livro-texto de medicina.”

Alguns laboratórios fazendo testes falométricos usam um “medidor de tensão”, que é exatamente o que parece: um fio sensível amarrado em torno do pênis para medir o quanto o pênis de um indivíduo ganha em circunferência por causa do inchaço peniano em resposta a vários estímulos apresentados ao sujeito. Mas os grupos de Freund e Blanchard usam um tipo mais preciso de medição, uma espécie de redoma que é colocada sobre o pênis inteiro e permite aos pesquisadores detectarem até mesmo pequenas mudanças no volume peniano. Blanchard explica:

“As respostas penianas foram registradas como centímetros cúbicos (cc) de aumento no volume de sangue no pênis a partir do momento em que um estímulo teste é iniciado até que o momento em que acaba. (Um estímulo teste foi uma narrativa gravada em fita mais os slides.) A ereção total, como medida pelo equipamento utilizado para coleta de dados, normalmente corresponde a um aumento no volume de sangue no pênis de 20-30 cc. No entanto, a maioria dos indivíduos responderam de forma muito menor do que isso. “

Então, o que os pesquisadores estavam investigando era a estimulação relativa a diferentes tipos de materiais sexuais, alguns sugerindo encontros sexuais com as meninas ou meninos pré-púberes (geralmente com cerca de 10 anos ou menos, e de interesse sexual de pedófilos), alguns sugerindo encontros sexuais com as meninas ou meninos na puberdade (geralmente com idades entre 11-14, e de interesse sexual para o grupo denominado “hebéfilos”), e alguns sugerindo encontros sexuais com homens e mulheres sexualmente maduros (de interesse para o povo pesquisadores chamam de “teleiófilos”, e que o resto de nós tendem a chamar de “normal”, ou seja, “homens e mulheres heterossexuais”, “gays”, ou “lésbicas”).

No trabalho de Blanchard, os sujeitos foram alocados em um de seis grupos de acordo com sua maior resposta no teste falométrico: (1) os homens que responderam mais à mulheres adultas do que qualquer uma das outras cinco categorias de estímulo foram classificados como teleiófilos heterossexuais; (2) homens que responderam mais aos homens adultos que a qualquer outra categoria de estímulo foram classificados como teleiófilos homossexuais, (3) os homens que responderam mais às meninas púberes do que a qualquer das outras categorias foram classificados como hebéfilos heterossexuais; (4) os homens que responderam mais à meninos púberes, foram classificados como hebéfilos homossexuais; (5) os homens que responderam principalmente à meninas pré-púberes foram classificados como pedófilos heterossexuais; (6) e os homens que responderam mais aos meninos pré-púberes foram classificados como pedófilos homossexuais.

Então, com o que se pareceram os números em cada categoria? Primeiro, tenha em mente que esta não é uma amostra aleatória da população andando em torno das cidades, esta é uma amostra de homens que foram especificamente designados para testes, normalmente porque eles eram suspeitos de um crime ou procurando ajuda terapêutica. Entre esse grupo, “o procedimento de classificar indivíduos de acordo com sua maior resposta peniana produziu 1.066 teleiófilos heterossexuais, 761 hebéfilos heterossexuais, 159 pedófilos heterossexuais, 110 pedófilos homossexuais, 86 hebéfilos homossexuais, e 96 teleiófilos homossexuais.”

De modo que pudesse repetir as comparações de Freund para este post, Blanchard grafou as informações relevantes do conjunto de dados como mostrado na figura abaixo. Ele observa, “Esta figura mostra a resposta média de cada grupo para cada categoria de estímulo. Assim, os leitores estatisticamente inclinados poderão fazer algumas comparações, além daquelas explicitamente que vou discutir, eu incluí o intervalo de confiança de 95% para cada média. Esses são representados pelas linhas verticais no topo de cada barra. Duas médias são significativamente diferentes, se seus intervalos de confiança não se sobrepõem. O inverso, porém, não é verdade, e o significado da diferença entre as médias com intervalos de confiança sobrepostos devem ser testados com outros métodos além da inspeção visual.”

Então, o que esta bela figura quer dizer?

Blanchard explica:

“As comparações chave produziram resultados semelhantes aos de Freund et al. Eles mostram que os homens gays (teleiófilos homossexuais) e os homens heterossexuais (teleiófilos heterossexuais) têm as mesmas respostas penianas para representações de crianças no laboratório”, isto é, relativamente baixas. Mas mais importante do que serem relativamente baixas, elas não são realmente diferentes para homens gays e heterossexuais.

Além disso,

“As respostas dos teleiófilos heterossexuais para meninas pré-púberes foram semelhantes às respostas da teleiófilos homossexuais para meninos pré-púberes (barra dourada no painel superior esquerdo vs barra verde no painel superior direito). A diferença entre essas médias não foi estatisticamente significante. As respostas de teleiófilos heterossexuais para meninas púberes foram na realidade ligeiramente maiores do que as respostas dos teleiófilos homossexuais para os meninos púberes (barra laranja no painel superior esquerdo vs barra azul no painel superior direito). Esta diferença foi estatisticamente significante; entretanto, o mais provável é que ela seja trivial, porque o teleiófilos heterossexuais são um pouco mais responsivos do que o teleiófilos homossexuais.”

Por isso, não parece que os homens homossexuais são mais propensos a serem atraídos por crianças púberes do que os homens heterossexuais.

Finalmente,

“Os painéis de meio e de baixo da figura mostram que os estímulos retratando meninos e meninas pré-púberes e púberes funcionaram como deveriam. Os sujeitos que responderam mais às categorias de estímulo responderam tanto ou mais, em termos absolutos, como os sujeitos que responderam mais aos homens e mulheres adultas.”

Em outras palavras, temos razão para acreditar que este método de ensaio está nos dando dados reais quando os usamos para concluir que os homens gays não são mais propensos a sentirem-se sexualmente interessados por crianças do que homens heterossexuais são.

Blanchard nos pede para mantermos em mente mais uma coisa:

“Embora o objetivo desta análise fosse combater a noção de que os gays apresentam mais risco para as crianças do que os homens heterossexuais, não foi destinada, simultaneamente, para demonizar todos os pedófilos e hebéfilos. Existem pedófilos e hebéfilos que nunca agiram em relação à sua atração sexual por crianças. Eles não podem ser responsabilizados por aquilo que eles sentem, e eles devem ser apoiados para a constante auto regulação que devem exercer, de modo a comportar-se eticamente.”

Na verdade, o trabalho de Blanchard me sugere que a pedofilia e a hebefilia parecem orientações sexuais, em outras palavras, pelo menos para os homens, a orientação sexual é composta não apenas de interesse em um determinado sexo, mas em uma determinada faixa etária também. Isso não significa, é claro, que as interações sexuais de adultos com crianças pré-púberes ou na puberdade são moralmente admissíveis ou deveria ser legalmente permitidas; Blanchard e eu ambos sentimos que os pedófilos e hebéfilos têm o dever de não agir sobre seus impulsos sexuais, porque as crianças não podem significativamente consentir em fazer sexo com um adulto. Isso é só para dizer que não faz sentido perseguir alguém por um impulso que a pessoa não manifesta em ato.

Meus escritos online sobre sexo estão agora coletados em Sex Research Honeypot

URL de origem: http://my.psychologytoday.com/node/56256

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*Alice Dreger é professora de Clinical Medical Humanities e Bioética na Feinberg School of Medicine da Universidade Northwestern em Chicago.

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