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Televangelistas ampliam homofobia das igrejas para o espaço público

18 Nov

por Anivaldo Padilha para Novos Diálogos

Sabemos que a homofobia tem raízes profundas na nossa cultura e está presente em todas as camadas  sociais e em todas as instituições e, portanto, não é exclusividade de nenhuma delas. No entanto, há de se reconhecer que as organizações religiosas, principalmente as cristãs, que são majoritárias em nosso país, têm uma grande parcela de responsabilidade pela disseminação do preconceito e do estigma contra pessoas cuja orientação sexual não coincide com os padrões estabelecidos pela nossa cultura baseada em valores patriarcais.

As posturas de líderes religiosos contra a homoafetividade, até há pouco tempo se limitavam aos espaços estritamente religiosos, nos limites dos templos, em sermões e em textos de educação religiosa dirigidos especificamente aos seus fiéis. Para eles, a homoafetividade é um pecado que deve ser combatido porque a consideram anti-natural e uma violação das leis da Criação. Até aqui, tudo bem. Cada igreja tem o direito de definir seus conceitos de pecado e exigir de seus fiéis o cumprimento de suas regras morais.

Entretanto, com o surgimento dos televangelistas e com a proliferação de blogs religiosos na internet, os discursos contra a homoafetividade ultrapassaram as fronteiras eclesiásticas e chegaram à esfera pública.

Ao trazerem a discussão, da esfera privada para o espaço público, esses lideres religiosos, provavelmente, não esperavam que teriam que se confrontar, não somente com o caráter laico do Estado brasileiro, mas, também com áreas de conhecimento com as quais terão de dialogar. A questão que se coloca é se estarão preparados para desatar os nós teológicos nos quais vão se enroscar.

É sabido que não há, ainda, estudos científicos conclusivos sobre os fatores que levam certas pessoas a sentirem atração afetiva por outra do mesmo sexo. Entretanto, já há consenso entre os pesquisadores de que a homoafetividade não é doença, nem desvio de caráter e muito menos perversão humana. Tanto é que a Organização Mundial da Saúde eliminou a homoafetividade da Classificação Internacional de Doenças (CID), e os conselhos nacionais de medicina, de psiquiatria e de psicologia fizeram o mesmo na maioria dos países, inclusive no Brasil. São poucos os países que ainda não se adaptaram a esses avanços científicos. Entre eles estão aqueles controlados por regimes muçulmanos fundamentalistas nos quais a homoafetividade é considerada um crime e pode, inclusive, levar à pena de morte.

Além desses estudos sobre o comportamento homoafetivo humano, há décadas os pesquisadores têm identificado práticas de relações homossexuais tanto entre fêmeas quanto entre machos de várias espécies de animais, além do ser humano. O médico Dráuzio Varella, em artigo publicado em 2010, citou estudos que identificaram essas práticas em ao menos 71 espécies de mamíferos, envolvendo fêmeas e machos, até entre os “machões” leões. E o que é mais interessante: as relações homossexuais são praticadas com um nível de criatividade que provavelmente faria inveja a um ser humano “desavergonhado”.

Como esses líderes religiosos reagirão aos resultados dessas pesquisas científicas que se desenvolvem desde o início do Século Vinte? Condenarão os animais por comportamento imoral e antinatural? Mas, os animais já não agem e reagem de forma “natural”? Reagirão como a Igreja Católica Romana, que levou quinhentos anos para pedir perdão a Galileu e reconhecer que o planeta Terra não é o centro do universo? Ou, por outro lado, estarão dispostos a lançar um outro olhar sobre suas hermenêuticas bíblicas e buscar uma nova compreensão sobre a sexualidade humana? Bem, só o tempo nos dirá que respostas serão dadas a essas e outras perguntas.

Entrementes e enquanto aguardamos as respostas, é importante pensarmos no que se passa no mundo real. De acordo com alguns levantamentos, um homossexual é assassinado a cada trinta e seis horas no Brasil. Esse número, certamente, não reflete toda a realidade de violência praticada contra homossexuais em nosso país. Sabe-se que muitos assassinatos causados por homofobia não são registrados como tal nas delegacias e, portanto, ficam de fora das estatísticas. As estatísticas também não incluem os diversos tipos de violência moral e simbólica das quais os homossexuais são alvos na sua vida cotidiana.

Essas formas de violência, por si só, já justificam a pertinência de uma legislação específica que tipifique a homofobia como crime. É importante que as lideranças das igrejas reconheçam que o discurso estridente antigay, principalmente fora dos espaços de suas denominações, dá aos homofóbicos de todas as matizes a legitimidade religiosa de que necessitam para a pratica da violência.

Felizmente, o que parecia unanimidade nas igrejas há algum tempo atrás deixou de sê-lo. Hoje, questões relacionadas aos direitos sexuais estão entre as que mais polarizam os conflitos teológicos e ideológicos nas instituições eclesiásticas, a demonstrar que as igrejas deixaram de ser impermeáveis às demandas por justiça por parte da comunidade LGBT. Ao contrário, testemunhamos o crescente engajamento de cristãs e cristãos nas lutas pela defesa de direitos e pela superação da homofobia.

Certamente, há ainda um longo caminho a ser percorrido para que as igrejas cristãs se tornem comunidades realmente inclusivas. Entretanto, muitos passos já foram dados nesse caminho e a esperança é que esse caminhar já iniciado se acelere, e que as fileiras de seus caminhantes se tornem cada vez maiores e se transformem em um caudaloso rio de esperança por onde o amor e a justiça possam navegar serenamente.

Anivaldo Padilha é metodista. Passou 13 anos exilado durante a ditadura militar e atualmente é membro do Conselho Latino-Americano das Igrejas (Região Brasil).

 

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