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Projeto de poder dos evangélicos: a destruição do estado laico

21 Nov

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Fonte:
Matula

Já algum tempo venho aqui chamando atenção para o projeto de poder dos evangélicos: a completa destruição do estado laico inerente ao regime republicano.
A concepção da “Igreja Estendida” visa justamente instrumentalizar este projeto.
Em linhas muito breves, a coisa se estrutura assim:
Embora o cisma protestante desencadeado por Martinho Lutero tenha advogado a capacidade de todo cristão estabelecer diretamente sua conversação com o seu Deus e obter Dele a orientação espiritual necessitada – objetivando impedir a continuidade da comercialização e manipulação da fé, então praticada somente pelos padres católicos -, na atualidade a doutrinação neopentecostal afirma que são apenas os apóstolos, quer dizer, “os que atuam na liderança apostólica em um conjunto de igrejas” é que são dotados por Deus da prerrogativa de ouvir as Suas palavras – através do Espírito Santo:

Ao contrário do que algumas pessoas podem pensar, não é responsabilidade de todos os cristãos nem dos pastores da igreja ouvir diretamente o que o Espírito está dizendo às igrejas (plural). São os apóstolos aqueles que receberam a responsabilidade primeira de ouvir o que o Espírito está dizendo às igrejas. Aqueles que atuam na liderança apostólica em um conjunto de igrejas precisam ouvir o que o Espírito está dizendo às igrejas sob sua responsabilidade. Da mesma forma, aqueles que têm uma jurisdição mais horizontal precisam ouvir, de forma ainda mais abrangente, o que o Espírito está dizendo (WAGNER, 2007, p. 10) .

Temos, assim,  a clara reinstauração da pedagogia da hierarquia e da mediação, com a exclusividade da capacidade e do direito a ouvir e compreender (saber interpretar, saber ver e ler “os sinais”) a palavra divina; aquilo que é o desejo, a “fala” do Deus, como ocorria antes do protesto de Calvino.
Reinstaura-se a convicção de que não são os pobres mortais capazes a ler a Bíblia e compreender os postulados do Deus cristão. Não.
Agora, como antes – quando submetidos ao exclusivo domínio papal -, são apenas e exclusivamente as “lideranças apostólicas” (aquelas possuidoras da prerrogativa de conduzir diversas igrejas) que são capazes de saber ouvir e interpretar a palavra “proveniente do Espírito”.
Mas, vejam que não é qualquer palavra do “Espírito”. – é a palavra que diz respeito à maneira de condução das igrejas. Dito de outra forma, a palavra que explicita o projeto da igreja.
E o que é que diz “a palavra global proveninente do Espírito” para as igrejas evangélicas (neopentecostais)?

“Ela” diz “que a razão bíblica para a existência da igreja, em todas as suas formas, é buscar, de forma ousada, tomar posse da sociedade em que vivemos  (WAGNER, 2007, p. 10) .

 Ora, se a razão, o motivo, o sentido “bíblico” para a existência da igreja é tomar posse da sociedade, é preciso que se construa e implemente um projeto para a conquista dessa sociedade, para a instauração de um “governo da igreja” (WAGNER, 2007, p. 11) .
E como se fará essa conquista?
Precisamente através da noção de “Igreja Estendida“.
Os escolhidos para receber a palavra do Deus
Por meio de imagens mentais místicas, que apontam para um capacidade especial, um dom especialíssimo de que estariam ungidos pela divindade, esses pastores dotados do poder de influência sobre diversas igrejas afirmam ter recebido do Deus uma incumbência, uma tarefa.
E, por simples dever de obediência, passam a transmitir essa “nova tarefa que Deus me havia atribuído”.
Empregando termos “do momento”, oriundos das ciências sociais – com o que “ancoram” seus postulados no imaginários de seus fiéis -, entremeados com textos bíblicos selecionados e descontextualizados, falam da necessidade da “da renovação da mente”; da “mudança de paradigma”; “de sair de nossa zona de conforto”; de “perceber que que precisamos fazer alguns ajustes na forma de pensar que nos acompanha há muito tempo” (Idem, p. 13).
Porém, como em todo processo de inovação, “alguns indivíduos a adotam logo de início, outros a adotam no meio do caminho, e outros ainda demoram muito para adotá-la, mas há aqueles que são retardatários e se recusam a aceitar qualquer inovação” (Idem, idem).  – Com esse discurso transmitem a mensagem subliminar de que “os melhores”, “os mais capazes” são precisamente aqueles que primeiro aderem às inovações. Portanto, seguem pavimentando suave e singelamente a sua pedagogia política.
“O espírito está dizendo às igrejas” [e não está dizendo para todos, mas apenas para os que foram ungidos como líderes] que é preciso “tomar posse da sociedade em que vivemos”. Portanto, para cumprir esse projeto – ou missão, dever, incumbência divina -, precisam estender a igreja a todos os demais espaços sociais possíveis.
Todos os espaços são igreja
Nesse projeto – estender a igreja para além do templo privado (igreja nuclear) -, há que se conquistar todos os espaços onde se trabalhe. Assim, cabe a todos os “cristãos” participar desse projeto de conquista e lutar para transformar o seu local de trabalho em uma igreja, estendendo-a então a todos os espaços sociais; todos! Porque em todos eles é preciso ganhar almas para o projeto divino.

E, assim, vão construíndo grupos de estudos bíblicos, grupos de oração, seja em qual seja a instituição – preferencialmente pública! Como Repartições burocráticas, Universidades e, mesmo no Parlamento!

Por meio dessa estratégia, buscam pura e simplesmente a destruição do estado laico, quer dizer, fazer ruir a separação entre estado constitucional e religião.
Buscam reintroduzir o estado religioso, tornando a religião estatal não a católica como foi no passado, mas precisamente a dogmática dita evangélica ou neopentecostal.
No entanto, sempre utilizando do discurso místico, afirmam que o que buscam é a implantação do Reino de Deus.
O Reino do Deus é aqui
Mas de um Reino de Deus aqui e agora e não “algo que virá quando o Senhor retornar.” (Idem, p. 15).
Postulam que o verdadeiro “Reino de Deus não está confinado nos muros de uma igreja local”.”Não é simplesmente uma metáfora ou uma figura de linguagem; ele é tangível. […] Deve ser encontrado onde quer que haja indivíduos exaltando Jesus Cristo como seu Rei.” Mas não apenas.
Por muito generoso, o Deus não quer e não se contenta em permanecer apenas entre aqueles que o exaltam. Ele que mais.

O desejo de Deus é que os valores, as bênçãos e quea prosperidade do Reino de Deus permeiem todas as áreas da sociedade. (Idem, p. 15. Negritei.)

Daí o novo paradigma. Da anterior noção de que se devia buscar a salvação em um outro mundo, que viria depois, pois este é mau e pecaminoso, agora o postulado é  não se deve abandonar o mundo à ação desimpedida de Satanás. Não. Muito ao contrário. Há que se realizar a disputa contra Ele.
E para isso – para disputar as almas com Satanás, ganhando-as para o Deus – é preciso fazer com que a igreja não se restrinja apenas às paredes do templo (igreja nuclear); que não se contente com aquelas almas que ali foram “espontaneamente” (sabemos os variados e não poucos casos de sugestão, para dizer o mínimo, mas fiquemos por enquanto aqui com a ideia de que aqueles que vão aos templos o vazem de forma voluntária, consciente, em pleno gozo de suas faculdades discricionárias). é preciso buscá-las em toda parte. Inclusive e preponderantemente no ambiente de trabalho. Afinal, é precisamente ali onde se passa o maior número de horas por dia.
Vejamos agora, sempre nessas linhas muito gerais, o que diz Edir Macedo, o fundador da Igreja Universal do Reino de Deus.
O Plano de Poder
Em 2008 o dono da rede Record de Televisão publicou em co-autoria com Carlos Oliveira, diretor-presidente do jornal Hoje em Dia, de Minas Gerais, o livro “Plano de Poder – Deus e os cristãos e a política”, onde procura sensibilizar seus fiéis e simpatizantes para a proposta política de construção de um estado evangélico.
Em suas 128 páginas, Macedo e Oliveira empregam a mesma tática de outros autores neopentecostais – sobretudo estrangeiros, notadamente estadunidenses, como Charles Peter Wagner, acima citado: Se valer de campos do saber acadêmico (ou científico)  com vistas a transmitir um ar de racionalidade, coerênica, bom senso.
Recorrendo a conceitos de administração e marketing e sempre selecionando descontextualizadamente trechos bíblicos que possam servir como fundamentação aos seus propósitos, Edir Macedo e Carlos Oliveira (não à toa um “cristão” graduado em administração de empresas) convocam os fiéis a deixarem de lado sua apatia e partirem para a disputa do estado, através da participação eleitoral:

“Os cristãos não devem apenas discutir, mas principalmente procurar participar de modo a colaborar para a desenvoltura de uma boa política nacional, e, sobretudo, com o projeto de nação idealizado por Deus para seu Povo”

É um projeto que se apropria do descrédito que paira sobre o parlamento, da parca cultura política e do ínfimo senso crítico da população majoritariamente pobre e mesmo sua parcela dotada de formação escolar superior – desprovidas de meios necessários à construção da capacidade crítica para além da manipulação da informação apresentada pelos grandes veículos de comunicação.
Ampliação no número de evangélicos
Sobre essa base fértil, segue avançando. Em 25 de maio de 2009 a Revista Época publicou edição de aniversário na qual trazia uma série de projeções para o país em 2020. – O maciço crescimento dos evangélicos estava entre elas.
A entidade protestante de estudos teológicos Serviço de Evangelização para a América Latina, mais conhecida como Sepal, apontara que aproximadamente 50% da população poderia ser de evangélicos em 2020.
A matéria, transcrita no sítio diHITTI, trazia opiniões tranquilizadoras que hoje parecem não se sustentar:
A capacidade de exercer influência
Estimada hoje em quase **24% da população** [ver abaixo o índice do IBGE/FGV-2010: 20,2%], as disputas que vem sendo travadas, as formas orgânicas e coordenadas de atuação de seus “apóstolos” tem feito com que exerçam um poder que não corresponde ao tamanho numérico de suas bancadas.
Não à toa a Presidenta Dilma, a mulher de personalidade forte, caráter firme e determinado; técnica competente que sempre comparecia às reuniões com o Presidente Lula quando titular de um seu Ministério munida de todas as informações, dados, estatísticas etc sobre os assuntos da pauta, em maio desse ano de 2011, deixou-se aprisionar numa vexatória trama obscurantista e, sem buscar informações fidedignas com os seus ministros e demais assessores, encenou talvez o seu mais humilhante e patético papel político-institucional, ao anunciar para jornalistas que, sem sequer conhecê-lo integralmente, determinara o recolhimento do material audiovisual em elaboração destinado ao Programa Escola Sem Homofobia.
Que país queremos?
A pergunta que se coloca é como os setores progressistas e defensores dos valores democráticos e republicanos pretendem fazer frente a esse projeto de poder que está claramente em andamento.
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3 Comentários

Publicado por em 21 de Novembro de 2011 em Religião

 

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3 responses to “Projeto de poder dos evangélicos: a destruição do estado laico

  1. Dhannyelly Augusta de Almeida Tétrico

    25 de Novembro de 2011 at 16:01

    São terríveis mesmo o preconceito e o ódio que boa parte dos evangélicos (pra não dizer de todos os líderes espirituais) sente pela Comunidade LGBT.
    Às vezes me pergunto se esse ódio se acacteriza como ausência do AMOR tão pregado por eles, tão difundido através das eloquentes pregações que eles fazem mas tão pouco praticado, onde estaria? Como o sentem, se não o manifestam a outros que lhes são diferentes?
    Aprendi na brevidade desta vida que cada um dá a outrem somente o que tem, senão torna-se um hipócrita,, propagador de teorias. Não se semeia o AMOR sufocando pessoas de gostos distintos, pelo contrário: isso só arrefece corações, aniquila as igualdades e promove este estado de miséria absoluta em que a sociedade brasileira se encontra.
    É muito triste, ainda, saber que pessoas ofendem outras, aniquilam outras, subestimam e subjugam outras em nome de um Deus que atenda-lhes as necessidades e que AME-lhes somente. Isso é incoerência! Infelizmente, com a chancela parlamentar, muitos acabam destilando esse veneno sob as bênçãos de um governo temeroso por maiores e mais contundentes escândalos.
    TRISTE, MUITO TRISTE MESMO TUDO O QUE ACONTECE!!!!

     
  2. Lucinei Cavalcanti

    7 de Dezembro de 2011 at 07:37

    Felippe, esse texto é muito bom. Já vimos o que acontece quando a religião, seja ela qual for, domina a política e o governo de uma nação – basta vê os fundamentalistas islâmicos. Fui criado numa família católica e hj tenho duas irmãs que se “converteram” para o protestantismo (nem sei se esse termo ainda serve). Mesmo participando da Igreja Católica através de suas pastorais, sempre combati idéias que colocassem os dogmas religiosos acima do direito à vida plena. Espiritualidade tem pouca relação com religiosidade e o próprio significado do termo religião atualmente é muito difuso e confuso. Tudo tá misturado nesse campo e isso pode ser pernicioso. Um brinde à inteligência deste texto.

     
  3. Grace Kelen

    5 de Março de 2012 at 01:05

    Dhann… não existe ódio aos gays ou coisa parecida. Antes da PL122 nem comentávamos sobre este assunto nas igrejas, já que para nós a homossexualidade é uma condição humana assim como tantas outras, das quais não estamos isentos. A questão é política. Não lutamos contra homossexualidade enquanto condição humana, pois cada um tem livre arbítrio para viver da melhor forma possível… mas lutamos contra o homossexualismo (homossexualidade e homossexualismo são coisas distintas) que é um movimento político e ideológico que através de pressões, desinformações e jogadas de perseguição política tentam nos intimidar, o que provocou toda esta reação por parte dos religiosos, pois não é divulgado, mas apesar de algumas igrejas evangélicas já aceitarem a união homoafetiva, eles invadem as igrejas tradicionais fazendo proselitismo e imposição do seu modo de vida e querem mudar nossa crença a qualquer custo. Infelizmente este discurso politicamente correto não reflete a realidade. Não somos a favor de um Estado evangélico, católico ou judeu… o ideal é que o Estado continue laico, mas enquanto nos atacarem iremos nos defender… não aceitamos imposições a nossa fé.

     

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