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Arquivos mensais: Março 2011

Jair Bolsonaro – Ele não está sozinho, nós também não.


Os juízes da normalidade estão presentes em todos os lugares. Nós vivemos na sociedade do professor-juiz, do médico-juiz, do educador-juiz, do ‘trabalhador social’-juiz.

Michel Foucault

 

A primeira coisa que senti após saber da declaração do deputado no CQC foi revolta. Revolta, mas não surpresa. Bolsonaro é mais do que apenas uma representação de valores conservadores. Ele é a própria incorporação desses valores. Ele não é burro, nem ignorante, nem falta a ele a educação formal de quem estudou em “boas escolas”. Ele vê, sente, percebe e se posiciona em relação a realidade daquela forma. Uma forma de colocar-se no mundo. É um modo de vida .E se ele é assim, muitas outras pessoas também são. E foram essas pessoas que votaram nele, que o escolheram para defender esses valores.

Esse homem apenas empresta seu rosto, sua voz, seus gestos, suas palavras para esses valores e às pessoas que os vivenciam. Essas mesmas pessoas terão filhos, os educarão e darão continuidade a essa forma de olhar o mundo – é claro que alguns desses filhos conseguirão produzir outras maneiras de viver suas vidas, afinal os seres humanos não são meros depósitos de idéias.

Acho que todas as medidas de repúdio ao que ele expressou devem ser tomadas, mas ainda que ocorra alguma punição não devemos esquecer que há pessoas que votaram nele e que votarão novamente. E elas têm esse direito. Tem direito de não aceitarem que existam valores diferentes dos delas, mas tem que aprender que tais valores são tão legítimos quanto. Não podem se considerar no direito de dizer como alguém deve viver suas vidas. Há limites entre discordar e discriminar.

E acho que aí que está a questão. Ele pode ser enquadrado na lei de discriminação racial porque o racismo é crime e pode levar a prisão. E é disso que ele está com medo, de ser punido por essa lei. No caso da homofobia tal lei não existe e como ele mesmo disse está “se lixando” para os homossexuais. Acho que nesse momento, seria importante que todos – homens, mulheres, gays, héteros, negros, brancos – que se sentiram humilhados, revoltados ou incomodados com a fala do deputado se posicionem e mostrem que há pessoas que pensam de outra maneira, que vivem de outra maneira, que olham e sentem o mundo de outra maneira.

E completando o trecho de Foucault desta vez encontramos o deputado-juiz.

 

Texto foi escrito por Maycon Benedito, colaborador do Blog Subvertendo Convenções
Formado em Psicologia. O contato dele é: maycon_benedito@hotmail.com

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Publicado por em 31 de Março de 2011 em Discriminação, Política

 

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Não quero ser filho do Bolsonaro | Homofobia e Racismo

Por: Leonardo Sakamoto  
Jornalista e doutor em Ciência Política. Cobriu conflitos armados e o desrespeito aos direitos humanos em Timor Leste, Angola e no Paquistão. Professor de Jornalismo na PUC-SP, é coordenador da ONG Repórter Brasil e seu representante na Comissão Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo.

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Em um quadro de perguntas e respostas do programa CQC, veiculado na noite desta segunda na TV Bandeirantes, ele compartilhou impressões sobre o mundo. Um filho que fuma maconha merece levar “porrada”. Ser um pai presente e dar boa educação garante que a prole não seja gay. Ótimo, para uma figura pública.

(Questionado sobre o que faria se seus filhos se apaixonassem por uma negra, Bolsonaro respondeu que eles eram educados e que não viveram em ambiente de promiscuidade, como a cantora Preta Gil, autora da pergunta – ver vídeo abaixo. Na manhã de hoje, não havia nada sobre o ocorrido em seu site. Minha opinião era de que, talvez, ele não tivesse entendido essa questão, porque a resposta dada foi nonsense. Horas depois, sua página trouxe uma justificativa: de que a pergunta foi “percebida, equivocadamente, como questionamento a eventual namoro de meu filho com um gay”. Ah, tá! Então, com gay tudo bem, né?)

Chamar o deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ) de figura folclórica seria um elogio desmesurado. É uma vergonha para o país que esse viúvo da ditadura militar ainda circule com poder pelo corredores do Congresso, defendendo as barbaridades do período mais tenebroso da história republicana brasileira e rasgando o respeito aos direitos fundamentais. Por outro lado, isso é, ao mesmo tempo, a maior prova de que somos uma democracia.

Bolsonaro tinha 29 anos quando Figueiredo deixou o Planalto para cuidar de seus cavalos – é saudosista de um período que não viveu por completo. Ficou 15 anos no Exército e mantém-se no Câmara dos Deputados devido à sua defesa dos direitos trabalhistas dos militares (pela quantidade de rifles que desaparecem dos quartéis no Rio e reaparecem nas mão do tráfico, verifica-se como os salários são vergonhosamente baixos). E, com isso, ganha carta branca para falar essas coisas estranhas.

Outro bom exemplo disso aconteceu há algum tempo, quando ele colocou um cartaz na porta de seu gabinete na Câmara dos Deputados com os dizeres “Desaparecidos do Araguaia, quem procura osso é cachorro”, zombando das famílias de vítimas da Gloriosa e dos esforços do governo federal para encontrar as ossadas dos guerrilheiros mortos pela ditadura e enterradas em local que o Exército nega revelar. Vale lembrar que o PP é um dos filhotes da Arena, partido da ditadura.

Ou uma entrevista dada para a revista Isto é Gente, em 2000: “Meu primeiro relacionamento despencou depois que elegi a senhora Rogéria Bolsonaro vereadora, em 1992. Ela era uma dona-de-casa. Por minha causa, teve 7 mil votos na eleição. Acertamos um compromisso. Nas questões polêmicas, ela deveria ligar para o meu celular para decidir o voto dela. Mas começou a freqüentar o plenário e passou a ser influenciada pelos outros vereadores. (…) Foi um compromisso. Eu a elegi. Ela tinha que seguir minhas idéias. Acho que sempre fui muito paciente e ela não soube respeitar o poder e liberdade que lhe dei”. Note o “que lhe dei”.

Outra frase de efeito: “O grande erro foi ter torturado e não matado” – esta dita após seminário no Clube Militar, no Rio de Janeiro, em 2008, contra manifestantes do Grupo Tortura Nunca Mais e da União Nacional dos Estudantes. Segundo ele, essa teria sido a melhor solução para evitar que, hoje, pessoas perseguidas pela ditadura pedissem indenização ou reclamassem a justa e correta abertura dos arquivos que contam o que aconteceu na época.

(Com isso, o deputado se mostrou menos “humano” que o seu colega de partido Paulo Maluf, que outrora sugeriu aos criminosos “estupre, mas não não mate”. Ou que seu outro partidário Celso Russomano, que chegou a defender a redução da idade mínima para trabalho, o que possibilitaria que crianças de 12 anos pegassem no batente.)

É claro que Bolsonaro e alguns militares da reserva (com a ajuda de alguns “estrelados” da ativa) querem que o direito à verdade e à memória permaneça enterrado em cova desconhecida junto com assassinados pela ditadura. E, pelo que parece, que sejam enviados para as mesmas covas, os direitos conquistados a duras penas depois que a ditadura, que ele apoiou, caiu.

 
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Publicado por em 30 de Março de 2011 em Homo/Bissexualidade, Política

 

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Deputado Federal Jean Wyllys sofre ameaças de morte por lutar pela causa Gay

Meu comentário: Enquanto isso, fanáticos religiosos e fundamentalistas de direita tentam fazer as pessoas acreditarem que homofobia é algo quase que irreal e um projeto de lei especifico para casos assim desnecessária.

Jean Wyllys: “A injúria nunca desaparece na vida de um homossexual”

Deputado federal fala a QUEM sobre as ameaças de morte que recebeu pela internet

onofre veras/agnews

O deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ) relatou à Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados ter sofrido ameaças de morte por meio de sua página no Twitter e de seu blog na internet. A denúncia foi feita na reunião da comissão na quarta-feira (23).

Em entrevista a QUEM, nesta quinta-feira (24), de seu gabinete em Brasília, Jean afirmou que as agressões, feitas entre sexta-feira (18) e sábado (19), tinham conteúdo homofóbico e são de autoria de grupos de extremistas religiosos. Nos próximos dias ele apresentará um dossiê à polícia.

“Quanto mais público torno isso, mais protegido estarei. As pessoas de bem da sociedade têm que tomar partido. Não vou deixar de caminhar em Copacabana, ir à padaria comprar meu pão”, disse ele.

A principal plataforma do jornalista, gay assumido, que participou da quinta edição do “Big Brother Brasil”, é uma proposta de emenda à Constituição (PEC) que autoriza o casamento civil entre homossexuais.

O deputado anunciou, em primeira mão, que essa causa será reforçada por uma campanha com artistas, que deverá começar em meados de abril. Jean também é parte da Frente Parlamentar Mista pela Cidadania GLBT (Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgênero), que será lançada na Câmara na terça-feira (29).

QUEM: Qual era o conteúdo dessas injúrias?
JW: Uma dizia: ‘Aviso que não saia de casa, porque você pode não voltar’. No sábado (19), recebi outra ameaça, pelo meu site: ‘Não vou lhe matar, não preciso, porque todo viado nojento morre de AIDS’. Outras usavam o nome de Deus. Eram injúrias muito violentas, odiosas e constrangedoras, calcadas na homofobia.

QUEM: Como reagiu?
JW: Levei um baque e respondi de imediato no Twitter: ‘Fanáticos religiosos estão me ameaçando de morte. Qualquer coisa que aconteça comigo, direta ou diretamente, as pessoas serão responsabilizadas e principalmente os mentores dessas pessoas’. Daí, me bloquearam e não pude mais responder àqueles perfis. Um quarto perfil escreveu: ‘Se esse país se respeitasse, sua cabeça e de seus iguais estariam penduradas no poste’. Intensificaram-se os ataques violentos a mim em blogs de líderes religiosos fanáticos. Começou uma campanha para me transformar em inimigo da comunidade cristã e não em inimigo da intolerância, como sempre fui.

QUEM: Tomou algum cuidado no seu dia a dia, passou a andar com seguranças particulares?
JW: Não pedi seguranças e nem pedirei. Isso mostraria que estou intimidado. Decidi trazer isso a público porque quero deixar claro que há um movimento para me silenciar, me neutralizar aqui dentro (na Câmara). Há uma ação orquestrada de líderes religiosos para me silenciar.

QUEM: Está com medo?
JW: Ler essas agressões dá uma dor profunda. Dói pensar que alguém nutre ódio por você. E ainda mais em nome de um Deus que deveria ser um Deus de amor. Essas agressões têm efeito amedrontador, mas me fortalecem. Não vou dar uma de durão. Isso me dói e num primeiro momento me desestabiliza, mas reacende a chama dentro de mim de que estou no caminho certo.

QUEM: Como sua família reagiu?
JW:
Minha mãe e meu irmão ficaram muito assustados, pois leram sobre as ameaças na internet. Eles me ligaram imediatamente. Eu pedi para que não se preocupassem, pois nada vai acontecer.

QUEM: O que te dá essa certeza, Jean?
JW:
Nada. Mas tenho certeza de que quanto mais público torno isso, mais protegido estarei. As pessoas de bem da sociedade têm que tomar partido. Não vou deixar de caminhar em Copacabana, ir à padaria comprar meu pão.

QUEM: Já procurou a polícia?
JW:
Estamos preparando um dossiê, imprimindo todos os ataques. Vou encaminhar uma cópia a Manuela D’Ávila (PCdoB-RS) (presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara) para que ela leve ao Presidente da Câmara (Marco Maia PT-RS). Nos próximos dias, vou encaminhar à delegacia de crimes virtuais.

QUEM: Antes de virar deputado, você já havia sofrido tamanha demonstração de homofobia?
JW:
A homofobia é algo que acompanha o gay desde muito cedo. A primeira vez que sofri uma injúria foi aos 6 anos. Morava na periferia de Alagoinhas, na Bahia. Minha mãe me deu dinheiro para que eu comprasse pão na venda. Estendi a mão sobre o balcão e pedi seis pães. Falei com a concordância correta e o homem me perguntou: ‘Você é viado ou estudado?’. Todos riram e fiquei muito constrangido, voltei para casa tremendo. Foi a primeira vez que ouvi palavra ‘viado’ e percebi pelas risadas que ‘viado’ era algo que eu não deveria ser, que não era certo. Aos 12 anos, ainda em Alagoinhas, estava indo vender algodão doce e um cara me deu um murro. Eu sempre tive esse jeito, era um menino delicado. Fui conquistando meu espaço à custa de muita informação. A injúria é um horizonte que nunca desaparece na vida de um homossexual. Fico feliz de a novela das 8 (“Insensato Coração”) colocar a homofobia como marketing social.

QUEM: Como está articulando a aprovação do casamento civil entre homossexuais?
JW:
Convidei as duas deputadas que conseguiram a aprovação do projeto de lei na Argentina que garantiu o casamento civil e também o vereador Pedro Zerolo, da Espanha, para uma grande campanha que meu gabinete está articulando. Está rolando em paralelo ao meu PEC um movimento da sociedade civil para uma campanha de artistas favoráveis ao casamento civil homossexual. Convidamos grandes artistas – homo e heterossexuais – para se juntar à causa, pois isso funcionou muito bem na Argentina. Wagner Moura já se colocou à disposição. Quero convidar Adriana Calcanhotto e Susana Moraes, pois as admiro, embora respeite a discrição delas. Chamarei também os casais André Piva e Carlos Tufvesson e Bruno Chateaubriand e André Ramos. Tem gente do primeiro time da Globo. Quando levantarmos fundos, vamos gravar uma campanha de TV, internet e fazer camisetas. Vamos soltar isso em meados de abril.

 
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Publicado por em 24 de Março de 2011 em Homo/Bissexualidade

 

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Márcio Retamero: Ensino religioso no Brasil, a quem interessa?

Por  A Capa

Márcio Retamero: Ensino religioso no Brasil, a quem interessa?

O ensino religioso no Brasil é instituído por lei. O artigo 33 da Lei nº 9.394 de 20 de dezembro de 1996 com redação dada pela Lei nº 9.475, de 22 de julho de 1997, que assim legisla:

Art.33° – O ensino religioso, de matrícula facultativa, é parte integrante da formação básica do cidadão e constitui disciplina dos horários normais das escolas públicas de ensino fundamental, assegurado o respeito à diversidade cultural religiosa do Brasil, vedadas quaisquer formas de proselitismo.
§ 1° – Os sistemas de ensino regulamentarão os procedimentos para a definição dos conteúdos do ensino religioso e estabelecerão as normas para a habilitação e admissão dos professores.
§ 2° – Os sistemas de ensino ouvirão entidade civil, constituída pelas diferentes denominações religiosas, para a definição do ensino religioso.

Novidade alguma no Brasil, a lei é ambígua e dá margens para acontecer o que vem acontecendo há muito entre nós: as aulas de religião nas escolas públicas de ensino fundamental são aulas de catecismo cristão ou catecumenato.

Os Conselhos Estaduais de Educação, formados em sua esmagadora maioria por cristãos católicos ou protestantes, são os grandes responsáveis por tornarem o ensino religioso em nossas escolas públicas, aulas de religião cristã, com classes divididas entre católicos e protestantes.

Ficam de fora todas as outras religiões que compõem o caldo cultural brasileiro, principalmente as religiões de “matriz afro”, sem contar as outras. Isso torna-se visível, inclusive no crucifixo pregado na parede da sala de aula ou na imagem de santos e santas espalhadas pelos corredores das nossas escola públicas.

Ministrei aulas durante anos em estabelecimentos de ensino público e jamais vi a imagem de um orixá nesses espaços, tampouco o Alcorão em lugar de destaque ou quaisquer outros símbolos religiosos que não fossem do cristianismo.

É correto dizer que a presença nas aulas de religião em nossas escolas é facultativa e não obrigatória e nos meus anos de magistério vi muitos alunos e alunas indo para a sala de leitura durante essas aulas, pois nada tinha com a fé que professavam as cores preto e branco do ensino religioso ainda ministrado no país. Kardecistas, candomblecistas, umbandistas, adventistas, dentre outros, pelo conteúdo programático de tais aulas, são excluídos.

É inegável: as aulas de ensino religioso em nosso país é confessional cristão de matriz, o que é ainda pior, fundamentalista. Portanto, o artigo 33 da Lei 9.475 é cotidianamente desrespeitado pelo poder público que gerencia tais escolas já que em primeiro lugar, não assegura a diversidade religiosa do Brasil, e em segundo lugar, não veda o proselitismo religioso dentro de nossas escolas pertencentes ao Estado que é, ou deveria ser, laico.

Quanto ao conteúdo programático e a constatação do fundamentalismo religioso como matriz das vertentes religiosas contempladas, para se constatar o fato, é obrigatória, principalmente pelos secretários de educação dos estados que compõem a federação brasileira, bem como pelos demais profissionais da área de educação e que trabalham em escolas públicas, o recente livro lançado no dia 22 de junho de 2010: “Laicidade: O Ensino Religioso no Brasil”, estudo liderado pela professora Débora Diniz (foto acima) da Universidade de Brasília (UNB).

Uma das conclusões do estudo é algo que já poderíamos intuir: o ensino religioso no Brasil dissemina (“oficialmente”, o que é pior) o preconceito e a intolerância. A antropóloga e professora Débora Diniz, em recente matéria publicada no portal UOL sobre o assunto, declarou: “O estímulo à homofobia e a imposição de uma espécie de catecismo cristão em sala de aula são uma constante nas publicações”, ou seja, nos livros didáticos adotados para este ensino.

O estudo publicado analisou 25 livros didáticos adotados pelo ensino religioso nas escolas públicas do nosso país. Assim ficou constatado e provado, certas coisas como a predominância de Jesus em relação a outros líderes espirituais da humanidade, o tratamento da homossexualidade (homossexualismo nos livros) como doença, perversão, mau moral, desvio de conduta, a associação entre ateísmo e nazismo etc.

Sou contrário ao ensino religioso nas escolas públicas bem como a exposição de imagens e símbolos religiosos nos espaços públicos, na minha opinião, isso fere a laicidade do Estado; contudo, creio ser praticamente impossível mudar este quadro no momento histórico que vivemos – assalto à máquina estatal do fundamentalismo religioso, barganha dos presidenciáveis Dilma Rousseff e José Serra com evangélicos fundamentalistas etc. – no entanto, urge o debate em torno do tema na sociedade com o objetivo de mudar o rumo do ensino religioso no Brasil ou a sua extinção.

O ensino religioso nas escolas públicas brasileiras só seria legítimo se o conteúdo programático promovesse a dignidade da pessoa humana, se refletisse realmente a diversidade religiosa do Brasil, se ministrasse conteúdos como a história das religiões sem maniqueísmo, a ética, a liberdade de escolha em matéria religiosa, inclusive a de não professar nenhuma religião.

Do jeito que está o ensino religioso – promotor de preconceitos e homofobia, além de ser proselitista – em nada contribui para a formação das nossas crianças, ao invés, produz fundamentalistas religiosos em progressão geométrica.

O processo de laicização do Estado brasileiro nunca chegará a termo se não mudarmos profundamente o rumo do nosso barco. A pergunta urge: a quem interessa este tipo de ensino religioso no Brasil? Vamos continuar de boca fechada?

* Márcio Retamero, 36 anos, é teólogo e historiador, mestre em História Moderna pela UFF/Niterói. É pastor da Comunidade Betel/ICM RJ e da Igreja Presbiteriana da Praia de Botafogo. É autor de “O Banquete dos Excluídos” e “Pode a Bíblia Incluir?”, ambos publicados pela Editora Metanoia. E-mail: marcio.retamero@gmail.com.

 
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Publicado por em 24 de Março de 2011 em Política, Reflexões, Religião, Sexualidade

 

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Justiça nega pedido de policial gay expulso para voltar a curso de tenente

Por A Capa

Justiça nega pedido de policial gay expulso para voltar a curso de tenente

Foi negado pela Justiça o pedido de defesa do PM Cláudio Rogério Rodrigues de voltar a frequentar o curso de formação para tenentes da Academia da Polícia Militar do Barro Branco, da qual o PM foi expulso por ser homossexual.

Cláudio Rogério trabalhava como cabo desde 2002 e entrou para Academia Barro Branco, na zona norte de São Paulo, em 2009. Após uma investigação da academia, o policial militar foi chamado em abril para responder questões sobre sua orientação sexual. Meses depois, o PM foi expulso por “motivos sigilosos”.

No documento em que nega sua volta, o juiz e relator do processo, Corrêa Viana, afirma que os argumentos dos relatores e as razões que levaram o PM à expulsão ficaram “bastante claras”.

O advogado de Cláudio Rogério tem até dez dias para recorrer após a notificação da decisão judicial. Ao portal “R7”, a polícia militar afirmou em comunicado que agiu com rigor em decorrência da omissão de informações do PM durante o processo de seleção do curso. “A conduta é um aspecto fundamental para que tenhamos bons quadros e evitar problemas graves ao cidadão”, diz a nota.

Veja abaixo o vídeo com a reportagem do “Jornal da Record”:
http://noticias.r7.com/videos/pm-e-negado-em-corporacao-por-suspeita-de-ser-homossexual/idmedia/a3d42198b8c246407ebb92b35bb74ff5.html

 
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Publicado por em 24 de Março de 2011 em Homo/Bissexualidade

 

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RELACIONAMENTO ABERTO: compromisso sem exclusividade


Para a relação funcionar é preciso um acordo mútuo e muito diálogo

Muita gente insiste em dizer que não existe mais amor de verdade, que as pessoas não querem se comprometer e que, por isso, muita gente está insatisfeita com os relacionamentos amorosos. O que acontece de fato é que as pessoas têm mais liberdade para assumir comportamentos, enquanto há algumas décadas eram totalmente condenadas por optar pela separação, por relações extraconjugais ou relacionamentos mais livres, em que ambos podem ter uma vida social, sexual e até amorosa fora do casamento.

Hoje, entretanto, há mais pessoas tentando esse tipo de relação amorosa conhecido como relacionamento aberto, em que os parceiros têm a liberdade de sair com outras pessoas e relacionarem-se sexualmente e até amorosamente com elas, neste caso poliamor – uma das variações do relacionamento aberto. A psicanalista Regina Navarro, em seu livro “A Cama na Varanda”, observa que as pessoas não têm mais que se adaptar a modelos impostos de fora, e então, cada vez mais abrindo um espaço onde novas formas de viver, assim como novas sensações, podem ser experimentadas. Os filósofos Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, um dos casais mais célebres da História, viveram um relacionamento assim, que durou 50 anos. Essa liberdade era exercida mediante um pacto, no qual eles contavam os detalhes de suas aventuras amorosas um para o outro.

Casal - Foto: Getty Images

Mulheres Vs. Homens?

Não é à toa que muita gente é totalmente contra esse tipo de “acordo”. Uma das razões é explicada pela biologia. A mulher tem um repertório de gametas sexuais formado desde o nascimento, que amadurecem na primeira menstruação. A partir daí, ela libera um óvulo por mês. Isso tende a fazer com que ela se comporte de uma maneira mais seletiva do que o homem, que tem todos os espermatozoides renovados a cada 32 horas. Ou seja, isso explica em partes porque os homens, muitas vezes, priorizam a quantidade de parceiras, enquanto as mulheres procuram relacionamentos mais duradouros. Mas essa é apenas uma parte da questão, tendo em vista que a maneira como somos educados e as nossas escolhas também têm grande influência nos relacionamentos amorosos.

Entretanto, independentemente do fator fisiológico, a vontade de variar existe. A maioria de nós já sentiu vontade de viver uma relação com alguém que lhe agradou, não importando se ama outra pessoa. O fisiologista de comportamento da Unifesp, Ricardo Monezzi explica que a partir dessa ideia, sai o conceito de fidelidade, como exclusividade sexual, e entra com maior importância e força o conceito de lealdade, que envolve a sinceridade e o companheirismo. Uma das ideias expostas por Regina Navarro é que os mais variados aspectos podem provocar o desejo, mas somos historicamente limitados pela ideia de exclusividade sexual.

Amor sem pronomes possessivos
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O casal Heloísa Fernandes e Pedro Mascarenhas mantêm um relacionamento aberto há oito meses. Antes disso, nenhum dos dois tinha vivido nenhuma experiência assim. “Sempre senti que um relacionamento aberto era a melhor solução, mas não tinha coragem para assumir algo assim. Posso sair com outras pessoas quando quero, mas tenho um forte compromisso em não deixar o Pedro de lado. Procuramos nos ver com frequência e até hoje nenhum relacionamento que tivemos interferiu negativamente no nosso”, conta Heloísa. Para Heloísa, esse modelo combina com a concepção que ela tem sobre o amor: “nos amamos de verdade e acredito que o amor de fato só existe quando o outro é livre para escolher. Quem ama não quer o outro como sua posse, ou como a satisfação de suas idealizações. Quem ama quer o outro livre e feliz”, conta a estudante. “Nossos pais não sabem disso. Prefiro não dizer ainda, pois é algo que, provavelmente, eles entenderiam como promiscuidade”, conta ela.

Casal - Foto: Getty Images

Pedro, no começo, temeu entrar nesse tipo de relação e acha que o acordo deve ser bem conversado: “com certeza um relacionamento aberto não é oposto à responsabilidade. Acredito que em um relacionamento responsável são indispensáveis a comunicação, a confiança e a sinceridade. Só assim é possível amar sem porém, incorporando tudo o que de bom e o que de ruim um relacionamento oferece – inclusive a satisfação sexual”, diz ele, que tem 21 anos. Entretanto, ele não considera adequado o modelo do poliamor, pois acha que o amor é uma construção, que demanda tempo e dedicação.

João Lestrange, professor, tem um relacionamento aberto com Gustavo Molina Turra há quatro anos. Hoje, os dois moram juntos e só adotaram o relacionamento aberto depois de um ano de namoro. “Ficamos com outras pessoas, mas não há envolvimento sentimental. Sempre procuramos contar sobre os outros relacionamentos um para o outro e nos amamos de verdade”, conta João. Nem tudo são rosas, no entanto. João não obteve aprovação da mãe, mas seguiu nesse modelo, pois acredita que é mais feliz assim, desde que tudo seja bem conversado.

Para quem diz não
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Muitas pessoas têm simpatia pela ideia do relacionamento aberto, mas sentem que não conseguirão viver felizes dessa forma. “Quando há dúvida e ciúmes, investir nesse tipo de relação não trará a menor satisfação”, diz Ricardo Monezzi. Portanto, ceder a um relacionamento aberto só porque você se apaixonou por alguém que quer exercitar esse modelo pode trazer uma enorme frustração. Se alguém tem outros relacionamentos às custas da mágoa do companheiro pode ter certeza de que não estamos falando de um relacionamento. “Tudo deve ser uma escolha consciente, tendo em vista que envolve aspectos muito sérios, da vida amorosa de cada um”, diz Ricardo.
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Fonte: Minha Vida

 
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Publicado por em 20 de Março de 2011 em Sexualidade

 

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Carnaval no Brasil: Do ódio ao amor aos Gays

Reportagem de capa da Revista ÉPOCA (Editora Globo):  Edição 668 – 04/03/2011
Jornalistas responsáveis:  Kátia Mello, Carlos Giffoni, Maurício Meireles, Martha Mendonça e Marcelo Rocha


No Carnaval, o Brasil aceita, imita e consagra os homossexuais. Por que no resto do ano há tanta violência contra eles?


NESSE DIA NINGUÉM CHORA: Foliões travestidos aguardam o início do desfile da Banda de Ipanema, no Rio. O Carnaval não apenas tolera, mas celebra o universo gay


Nos próximos dias, eles vão tomar o país. Nas escolas de samba, nos blocos, nos desfiles de fantasia, os homossexuais dominam o Carnaval. Durante esse período, se você passear pela Praça General Osório, no início de Ipanema (o bairro mais carioca do Rio de Janeiro), poderá pensar que está numa república diferente – cujo hino é uma marchinha irreverente, a bandeira tem a cor do arco-íris e a língua, quando é usada para falar, traz tantos sotaques quantos havia na mítica Torre de Babel. Não é à toa. O Rio costuma receber 800 mil turistas homossexuais por ano, um terço deles durante o Carnaval. Em média, eles gastam três vezes mais que os turistas heterossexuais.

Neste verão, a moda foi o cruzeiro gay. Apenas num fim de semana de janeiro, desembarcaram no Rio 2 mil homossexuais americanos de um transatlântico. Salvador não fica muito atrás. Neste ano, a cidade lançou o primeiro trio elétrico gay da Bahia, o Liberty. Os abadás, camisetas que servem de passaporte para o bloco, se esgotaram em poucos dias. Florianópolis também entrou na briga para atrair os gays: virou sede da convenção anual do IGLTA – International Gay & Lesbic Association, a ser realizada no ano que vem.

Aos gays que vêm de fora, acrescente-se o contingente nacional. Não é que eles se multipliquem (não há dados para afirmar que mais gente saia dos armários nesses dias), mas a cultura carnavalesca deve muito de suas características ao universo gay. E mesmo alguns dos mais renitentes machões saem às ruas travestidos.

Num clima desses, de tamanha tolerância, fica difícil entender que estejamos no mesmo país que vem testemunhando casos chocantes de agressão a homossexuais. “Muitos dos homens que saem de vestido e maquiagem nos blocos de Carnaval vão agredir homossexuais no resto do ano ou mesmo quando tirarem a fantasia”, diz Carlos Tufvesson, coordenador especial de Diversidade Sexual do município do Rio. Por isso, Tufvesson lançou na última quarta-feira a campanha “Rio: Carnaval sem preconceito”, que incluirá depoimentos de artistas e treinamento para guardas civis saberem lidar com casos de discriminação ou agressão.

Casos assim não faltam, como pode testemunhar Augusto (nome fictício). O rapaz de 27 anos, estudante da Universidade de São Paulo (USP), tem tido pesadelos desde o final de janeiro, quando foi atacado, às 4h30 da madrugada, na Rua Peixoto Gomide, na região central de São Paulo. Ele andava com um amigo quando, do nada, levou uma garrafada no olho. O amigo foi atingido por socos e pontapés. Os agressores eram um grupo de oito jovens vestidos de preto. Um tinha a cabeça raspada, outro era tatuado. “Não houve uma palavra, uma provocação. Eles simplesmente nos atacaram”, disse Augusto. Pelo jeito que ele e o amigo falavam e gesticulavam, imagina, era possível perceber claramente que os dois eram gays. Daí conclui que sofreu um ataque homofóbico.

Em seus pesadelos, Augusto sonha que está com amigos e de repente alguém morre. O estudante quase perdeu a visão do olho direito. Depois do ataque, diz ter parado de sair à noite. Segundo ele, o mais traumatizante não foi a violência, mas como as pessoas reagiram a ela. “Alguns disseram que eu tinha mesmo de apanhar por ser gay.”

Estima-se que no ano passado o Brasil teve 252 assassinatos motivados por ódio aos homossexuais

Essa região de São Paulo parece ter se tornado foco de ataques. Em novembro, houve dois do mesmo tipo. Um grupo de s cinco rapazes atacou quatro jovens em diferentes locais da Avenida Paulista. Como uma das agressões foi filmada pela câmera de segurança de um banco, o caso ganhou os noticiários de TV. Os cinco agressores foram identificados. Quatro deles, menores, passaram um mês na Fundação Casa (ex-Febem). O único maior de idade do grupo, Jonathan Domingues, de 19 anos, foi indiciado por lesão corporal.

Uma das vítimas desse ataque foi Luís Alberto Betonio, de 23 anos, estudante de jornalismo. Ele caminhava com amigos gays quando foi atingido no rosto, sem nenhum aviso, com uma lâmpada fluorescente. Betonio também passou a ter medo de sair de casa. Faz terapia, mas diz ainda não ter conseguido superar o medo. “Ando na rua olhando para trás o tempo inteiro, desconfio de todo mundo.”

A poucos metros de onde Betonio apanhou, os cinco rapazes fizeram mais vítimas. Sérgio, de 38 anos, gay assumido, levou sete golpes de soco-inglês. Quase perdeu a visão. Enfrentou duas cirurgias de reparação, uma delas de dez horas. “Tive medo de ficar cego”, disse. O olho ficou bom, mas o trauma permanece. “Chorei muito. Demorei três meses para sair com meus amigos de novo. Naquela região da cidade, eu não ando mais.”

Embora São Paulo tenha ganhado o foco principal como palco de violência, os ataques têm acontecido por todo o país – na Praia do Arpoador, Rio de Janeiro, em Salvador, em Curitiba, em Fortaleza… A secretária dos Direitos Humanos do governo Dilma Rousseff, Maria do Rosário Nunes, que tem status de ministra, afirma que o país está diante de uma emergência. “Esses ataques são crimes de ódio e não podem se consolidar como uma prática cotidiana. Isso é inaceitável”, afirmou.

Evelson de Freitas/Ag. Estado

PARADA
A senadora Marta Suplicy e o deputado Jean Wyllys (de óculos, à esq.) em passeata pró-gays, em São Paulo. Os dois fazem parte da frente para promover direitos dos homossexuais

O tema ganhou importância simultânea em várias esferas da vida do país. No Congresso Nacional, um grupo de parlamentares liderados pelo deputado Jean Wyllys (PSOL-RJ) tem a intenção de reativar a Frente Parlamentar Mista pela Cidadania LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgêneros). A senadora Marta Suplicy (PT-SP) obteve na primeira semana de mandato as 27 assinaturas necessárias para desengavetar um projeto de lei que torna crime a discriminação por orientação sexual, nos mesmos termos do que ocorre em relação a raça, cor, etnia, religião e procedência nacional. “Sinto que no Senado existe um clima positivo em relação ao projeto”, diz Marta. Ela sabe que sofrerá resistências, principalmente de setores religiosos e conservadores, mas acredita que as cobranças da mídia em favor dos direitos humanos leve a maioria dos parlamentares a votar pelo projeto.

Também o Supremo Tribunal Federal (STF) trata de um tema relacionado a direitos dos homossexuais. O órgão deve decidir se estende para casais do mesmo sexo o regime jurídico de uniões estáveis – que daria a gays lésbicas direitos em questões como benefícios previdenciários e assistenciais. “Hoje, o Supremo está sendo desafiado para as grandes questões, como os direitos civis dos homossexuais”, disse o ministro do STF Luiz Fux, empossado no final de fevereiro. “Os homossexuais têm todos os deveres e querem seus direitos.”

O tema do ódio aos gays também está na casa de milhões de brasileiros que assistem à novela Insensato coração (da TV Globo, que pertence à mesma organização que edita ÉPOCA). A novela, iniciada em janeiro, tem seis personagens gays – e, na semana passada, o personagem Kleber, interpretado pelo ator Cássio Gabus Mendes, revelou ser homofóbico. O autor da novela, Gilberto Braga, já havia inventado personagens gays, mas esta é a primeira vez que ele retrata um conflito. “Hoje, podemos falar do assunto com muito mais clareza”, diz. “Não há censura, e as pessoas evoluíram.”

Se as pessoas evoluíram tanto, por que os ataques parecem mais frequentes, mais disseminados e mais carregados de ódio? Quando se pede aos especialistas que expliquem essa aparente onda homofóbica, eles respondem com um paradoxo: quanto mais o país avança nos direitos civis da comunidade gay, maior é a reação. “Se a aceitação cresce, também cresce a rejeição”, diz Marcelo Tavares Natividade, professor da Faculdade de Serviço Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Doutor em antropologia, Natividade diz que, se um grupo controverso chama a atenção para si, seus opositores vão se achar no direito de agir contra eles. Hoje, os casais homossexuais andam de mãos dadas na rua e se beijam no cinema e nos bares. Aparecem na TV, no cinema, declaram sua opção sexual com mais desenvoltura.

Um estudo feito em 2005 pelos pesquisadores Dominic Parrott e Amos Zeichner, da Universidade da Geórgia, EUA, corrobora essa explicação. Um grupo de 165 homens assistiu a filmes eróticos (parte deles viu um filme heterossexual, a outra parte viu um filme homossexual) e depois interagiu com alguém de orientação sexual oposta à sua. Entre os participantes preconceituosos (identificados por um questionário anterior), os que viram um filme homossexual se mostraram depois mais agressivos em relação a seu oponente gay do que os que haviam visto um filme erótico heterossexual. “Essa descoberta mostra que o aumento da raiva devido à exposição a estímulos homoeróticos pode ser um precursor da agressão contra gays”, dizem os autores do estudo.

Também as estatísticas dão a mesma ideia. Dos 485 casos de homofobia registrados na cidade do Rio entre julho de 2009 e dezembro de 2010, a maior parte foi na Zona Sul, justamente a região de costumes mais liberais. O Leblon, área nobre da Zona Sul, teve quatro vezes mais ataques que a Penha, na Zona Norte. A presença ostensiva dos gays na cena social pode contribuir, portanto, para a violência. No passado, não havia agressão porque não havia homossexuais nas ruas. Eles andavam camuflados de hétero ou não saíam de casa. O que se faz, então? Com toda a razão, os homossexuais se recusam a voltar para os guetos.

Mais que isso. Historicamente, os avanços dos direitos dos homossexuais reflete o avanço das liberdades civis como um todo. O primeiro país a abolir leis que proibiam a homossexualidade foi a França, em 1791, logo após a revolução que disseminou a ideia de direitos individuais. A ideia começou a se espalhar pela Europa, mas muito lentamente. No século XIX, o genial escritor Oscar Wilde (autor de O Retrato de Dorian Gray) foi preso por “indecência” e condenado a dois anos de trabalhos forçados. Morreu pouco depois de ser solto.

Em pleno século XX, na Inglaterra, o matemático Alan Turing foi processado em 1952 por ser homossexual (na ocasião, ainda era crime). Turing era um herói de guerra: desvendou os códigos das mensagens alemãs durante a Segunda Guerra Mundial, salvando milhares de vidas britânicas. Não lhe valeu de nada. Turing foi forçado a escolher entre ir para a prisão e tomar hormônios femininos para reduzir sua libido. Escolheu a segunda opção. Dois anos depois, suicidou-se. Em 2009, o então primeiro-ministro, Gordon Brown, pediu desculpas póstumas em nome do governo britânico. Nos Estados Unidos, só a partir da década de 60 começou a haver grupos organizados de gays e lésbicas. E só na década de 70 a Associação de Psiquiatria Americana removeu a homossexualidade de sua lista de transtornos mentais.

Segundo um estudo sueco, ainda há hoje 80 países que consideram homossexualidade um crime – em cinco deles, punido com a morte. Em uma viagem aos Estados Unidos há alguns anos, o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, afirmou que em seu país não havia homossexuais. Não é verdade, é claro, mas não por falta de esforço. Desde a Revolução Islâmica, em 1979, mais de 4 mil pessoas foram executadas por participar de atos homossexuais. No Zimbábue, o presidente Robert Mugabe instaurou uma campanha de perseguição do Estado contra os gays. Homossexualidade, segundo ele, é uma “doença” trazida pelos colonizadores brancos.

Behrouz Mehri/AFP, Geert Vanden Wijngaert/AP

CRIME
Ahmadinejad, do Irã, e Mugabe, do Zimbábue, promovem perseguição oficial aos homossexuais

“Essas coisas levam tempo”, afirma Gustavo Venturi, sociólogo e professor da Universidade de São Paulo. “Há 20 anos nem se discutia homofobia. Era como se os gays não existissem.” A discussão é, em si mesma, um avanço. No primeiro momento, para conhecer o problema. Não há estatísticas nacionais oficiais sobre ataques contra homossexuais. O único Estado que registra essas ocorrências é o Rio de Janeiro. O Grupo Gay da Bahia é a única organização que contabiliza dados nacionais. Segundo eles, em 2010 ocorreram 252 assassinatos com causa homofóbica no Brasil. Não qualquer crime: assassinatos. Essas estatísticas afloram do noticiário. São, portanto, números controversos, provavelmente errados – para menos. “Se houvesse um acompanhamento do Estado, o número de casos de homofobia seria muito maior”, afirma Antônio Sergio Spagnol, sociólogo do Núcleo de Estudos da Violência da USP. Ele afirma que grande parte das famílias dos homossexuais mortos prefere tratar o assunto como crime comum. Por causa do preconceito – e do tratamento frequentemente antipático da polícia –, os próprios homossexuais não costumam notificar as agressões de que são vítimas. Apesar da ausência de estatísticas oficiais, ele acredita, porém, que a violência contra gays não aumentou. “Hoje a sociedade não aceita esse tipo de comportamento”, diz. “Antes, um gay morria e não havia divulgação. Hoje, os casos aparecem e são tratados pelo que são: homofobia.”

De onde vem essa homofobia?

O homofóbico pode estar a seu lado e, em geral, não é difícil identificá-lo. “Ele faz comentários pejorativos, exprime nítidas rejeições aos homossexuais e os culpa por tudo de ruim que existe no mundo”, afirma o psicólogo Antônio de Pádua Serafim, do Instituto de Psiquiatria da USP. Serafim faz distinção entre o preconceituoso e o intolerante aos gays. Afirma que o preconceituoso não aceita a homossexualidade, mas não tem o desejo de eliminar o gay, como acontece com o intolerante. Para Serafim é a intolerância, não o preconceito, que produz violência. Além disso, o psicólogo diz que os homofóbicos se acham superiores às outras pessoas. “Eles são egocêntricos. Sofrem de uma distorção na interpretação da realidade. Não conseguem ter convívio social com os que consideram diferentes deles”, diz.

Como qualquer forma de preconceito, o ódio aos gays tem múltiplas motivações. Ele pode vir de uma experiência desagradável com um indivíduo, seguida de uma generalização para o grupo todo. Para outros, o ódio é sinal de aderência a um grupo preconceituoso. Um terceiro tipo é o preconceito derivado da convicção de que os homossexuais representam valores que conflitam com suas crenças. Finalmente, ele pode vir do medo de sua própria homossexualidade. “Ao ver um homossexual ou um travesti, o homofóbico pode sentir sua masculinidade ameaçada”, diz Serafim. Um estudo publicado em 1996 pelo Journal of Abnormal Psychology testou essa hipótese. Dois grupos de homens, um com 35 homofóbicos e outro com 29 não homofóbicos (identificados de acordo com um questionário), assistiram a vídeos com cenas eróticas de homem com mulher, mulher com mulher e homem com homem. Uma fita media a circunferência de seus pênis durante o teste. Todos se excitaram com as cenas de amor heterossexual. Todos se excitaram com as cenas de amor entre duas mulheres. Só o grupo de homofóbicos teve ereção com as cenas de amor entre dois homens.

Embora possa explicar alguns casos de homofobia, essa tese, aplicada genericamente, se transforma num clichê sem poder de explicação. A intolerância é um fenômeno antigo e disseminado em diversas culturas. Contra grupos raciais, étnicos ou religiosos. Nem sempre (ou raramente) existe alguma identidade inconsciente entre o agressor e sua vítima. Com a homofobia é provável que aconteça o mesmo. Ela tem vários matizes. “Não se pode generalizar nem combater um preconceito com outro”, diz a psiquiatra Carmita Abdo, professora da Universidade de São Paulo (USP) e especialista em sexualidade. Ilana Casoy, criminóloga da Comissão de Política de Criminalização da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), que estuda há mais de uma década crimes violentos, afirma que os homofóbicos, em geral, são os mesmos que se manifestam contra nordestinos e negros. “O perfil desse tipo de agressor não se altera. O que muda é o alvo de sua agressão.” Para Ilana, o homofóbico relaciona o homossexual à imoralidade, à impureza e, portanto, acredita que ele deveria ser “descartado para o bem da sociedade”. Segundo seus estudos, esse agressor é jovem, sugestionável, ainda sem identidade solidificada. “Ele é frágil psicologicamente e forte fisicamente.”

A discriminação contra homossexuais é complexa: admitimos que há preconceito em nossa sociedade, mas somos incapazes de aceitar o preconceito em nós mesmos. Uma pesquisa da Fundação Perseu Abramo em parceria com a alemã Rosa Luxemburgo Stiftung, realizada em 2008 com 2.014 brasileiros em 150 municípios, revelou que quase a totalidade da população brasileira afirma existir preconceitos sexuais: 93% dizem que há preconceito contra travestis, 91% contra transexuais e 92% contra gays. Mas, quando se pergunta se os próprios entrevistados são preconceituosos, os números mudam. Apenas 29% admitem ter preconceito contra travestis, 28% contra transexuais e 53% contra gays e bissexuais de ambos os sexos. Nessa mesma pesquisa, ficou constatado que a aversão dos brasileiros aos homossexuais só perde para o preconceito contra os ateus e os usuários de drogas. O sociólogo Venturi, da USP, afirma que “os preconceitos se reproduzem por inércia. São valores que passam pelo trabalho, pela escola, pela família”.

O ambiente familiar é muitas vezes onde são feitos os primeiros contatos com a homofobia, para os agressores e para as vítimas. Muitos dos homofóbicos vivem em famílias desestruturadas, em que os limites nunca são impostos. Em novembro, depois do episódio de agressão na Avenida Paulista contra o estudante Luís Betonio, a mãe de um dos agressores menores de idade chegou a dizer ao delegado que o espancamento não passara de uma “briga de moleques”. Briga de moleques? “Muitos pais não ensinam mais reciprocidade, justiça, honestidade e polidez a seus filhos”, afirma Paula Gomide, presidente da Sociedade Brasileira de Psicologia e psicóloga forense. “Esses valores são antídotos para crimes como a homofobia.” Esse é um lado da questão. O outro é a homofobia praticada em casa, contra um dos membros da família. O filho é agredido, física ou verbalmente, por causa de sua orientação sexual. Alguns pais acreditam que a homossexualidade é uma simples opção e que os filhos fazem essa escolha para afrontá-los. Outros pensam que é “culpa” deles o filho ser homossexual e decidem “consertá-los” com disciplina e violência. Nos dois casos, o resultado é opressão contra as crianças ou adolescentes.

O carioca Felipe Gomes, de 30 anos, ativista do Grupo Arco-Íris, conta que viveu um apartheid familiar. Aos 18 anos, assumiu ser gay para sua mãe e ouviu dela, uma evangélica praticante, o seguinte: “Prefiro ter um filho morto a ter um filho gay”. Ele diz que a mãe batia nele e o obrigava a usar copos, talheres e um banheiro diferentes do resto da família. Gomes também tinha de dormir num quarto separado. “A ideia era me estigmatizar para eu tomar jeito”, diz. “Minha mãe achava que eu poderia me curar”, afirma. Passados 12 anos, ele diz que se reconciliou com ela.

A sociedade brasileira ainda não conseguiu essa paz. O Projeto de Lei nº 122/06, que caracteriza a homofobia como crime, suscitou uma reação forte, e não só de grupos conservadores. O jurista paulista Ives Gandra Martins discorda de ações afirmativas de grupos minoritários. “Dão a impressão de privilégio a determinadas classes”, afirma. Segundo ele, o projeto tornaria crime de homofobia fazer piadas contra gays. “Ora, eu conto piada sobre qualquer assunto. Grupos de humor também. Não vão poder fazer piadas sobre gays?” Os pastores evangélicos consideraram que a proposta de lei contra a homofobia cerceia o direito de expressão religioso. “Ensinar e pregar contra a prática do homossexualismo não é homofobia”, diz Augustus Nicodemus Gomes Lopes, presidente da Universidade Presbiteriana Mackenzie, num manifesto que se espalhou pela internet.

   André Arruda/ÉPOCA
Uma mãe em busca de justiça

Apesar de ter desmontado a cama do filho, Angélica Ivo ainda não conseguiu se desfazer de suas roupas e objetos. Angélica busca justiça. Era 21 de julho, dia do jogo do Brasil com a Costa do Marfim na Copa do Mundo, quando seu menino Alexandre, de 14 anos, foi encontrado morto por estrangulamento em São Gonçalo, Rio de Janeiro. Angélica conversou com os amigos e pressionou a polícia para investigar. “Nunca tinha ouvido falar em crime de ódio, não sabia que alguém era capaz disso. Dói muito imaginar a cena do meu filho, uma criança, lutando três horas pela própria vida”, afirma. Os três suspeitos são skinheads e respondem em liberdade.

Marcelo Min/Fotogarrafa
“O pior foi a reação das pessoas”

Augusto (nome fictício), estudante da Universidade de São Paulo, voltava da balada com um amigo, na região central de São Paulo, quando os dois foram atacados por oito jovens vestidos de preto. Levou uma garrafada no olho, e o amigo foi atingido a socos e pontapés. “Não houve palavra nem provocação. Eles simplesmente nos atacaram”, disse. Traumatizado com a agressão, Augusto diz ter deixado de sair à noite. Tem pesadelos constantes, nos quais está com amigos e de repente alguém morre. O mais traumatizante, afirma, não foi o ataque em si, e sim a reação das pessoas a ele. “Alguns disseram que eu tinha mesmo de apanhar, por ser gay.” A atuação da polícia, segundo ele, também deixou a desejar. “Depois do ataque, encontrei uns policiais e pedi que eles mandassem uma viatura. Enquanto estive ali, eles não fizeram nada.”

Filipe Redondo/ÉPOCA
“Pensei que era brincadeira”

Alto, magro, com piercing na orelha, Luís Alberto Betonio, de 23 anos, ficou conhecido nacionalmente como o jovem que foi atingido com uma lâmpada fluorescente no rosto. Ele caminhava com amigos gays em novembro, na Avenida Paulista, região central de São Paulo, quando foi atacado. “Pensei que era brincadeira. Senti meu rosto coberto por um líquido. Depois vi que era sangue.” Eram cinco agressores, que atacaram no total quatro jovens. Uma das agressões – a de Betonio – foi filmada pela câmera de segurança de um banco, e os agressores acabaram identificados e detidos. Eram quatro menores (enviados à Fundação Casa) e um maior de idade, que está foragido desde que foi indiciado, em janeiro.

   Stefano Martini
Uma história de superação

Aos 12 anos, em pleno alto verão do Rio de Janeiro, a carioca Jô ia de calça comprida e blusa de manga comprida para a escola. Queria esconder as cicatrizes deixadas pela surra da mãe. “Sapatão!”, gritava. Jô diz que apanhava por ser gay, sem ainda entender o significado da palavra. Chegou a ser internada num hospício, de onde conseguiu fugir. A mãe a encontrou e a acusou de “delinquente”. A denúncia lhe rendeu uma temporada numa casa de detenção. “Vi coisas lá que não desejo a ninguém”, diz. Aos 16 anos, foi estuprada por um homem que dizia que “iria dar um jeito nela”. Jô engravidou do estuprador e seu filho hoje está com 25 anos. Depois, morou um ano na rua. Tudo passou. A funcionária pública, aos 43 anos, afirma que sua história é de superação. Diz ter encontrado a paz na Igreja Contemporânea, uma congregação evangélica que aceita homossexuais. “Usei cada pedra atirada para construir meu castelo.”

 
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Publicado por em 13 de Março de 2011 em Homo/Bissexualidade, Reflexões

 

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